Cap. III (part. 1)
Ciaran colocou um alvo na parede ao lado das escadas, andou até ao junto do palco, que ficava do outro lado do saloon, e desenhou um risco no chão. Ebony estava abraçada a Riki, junto a Vince, Haine e May que ainda não se tinham separado.
- Parece fácil… - disse Vince.
- Sim, até mesmo para um ladrão de meia tijela como tu. – respondeu Riki com uma gargalhada.
Haine preparou-se para ripostar quando Amaya apertou-lhe o braço com força, este trincou os lábios inferiores e engoliu em seco.
- Então e tu rapaz? Já me pareces melhor que aquele ali! – perguntou Riki a Haine, inclinando a cabeça para Vince.
- Então o quê? – a voz de Haine era calma.
- Achas fácil?
- Já acertei em pessoas a correr, acho que um alvo parado não é grande desafio. – Haine olhou para May. – Tens um cigarro?
- Sim. – Ela deu-lhe um e acendeu-o
- Pelo menos coragem tens. – Riki voltou a soltar uma gargalhada.
- Porquê? – Haine não tirava os olhos do alvo mesmo na frente destes, nunca olhando para Riki.
- Vens para estes jogos sem um fato. Sabes que o nome é “Gentlemen’s Games”, por isso devias apresentar-te como um.
- Não preciso de um fato para me comportar à altura do que a ocasião exige.
May e Ebony olhavam, também, fixamente para o alvo, pedindo secretamente para que aqueles dois realmente se comportassem como cavalheiros.
- Para além disso, sabendo que o “Papá” não gosta de ti, ainda tens a ousadia de reclamar uma filha dele como tua! – Riki mostrava-se orgulho de tudo o que sabia acerca de Haine.
- Ela não é minha, ela não é de ninguém! É uma rapariga livre de ter as suas escolhas e de fazer o que lhe bem apetecer, se escolheu a minha companhia foi porque assim o quis. E sei do perigo que corro ao estar a seu lado, mas isso é algo menor comparado ao bem que me faz quando ela, simplesmente, me agarra pela mão ou pelo braço.
May olhou para os olhos do rapaz e sorriu. “Ele é realmente alguém diferente de toda a gente que conheci”, pensou.
Entretanto Ciaran aproximou-se de Ebony:
- Tudo está pronto, Srª..
- Ok. – respondeu ao empregado baixo, aumentando depois o tom de voz para anunciar. – Muito bem, em cima do balcão estão Berretas, uma para cada um, cada uma com 2 balas. Iremos começar pelos convidados do Norte: Dom Armando, o senhor é o primeiro. Boa sorte.
Um homem, já com uma certa idade, levantou-se pegou na primeira arma, olho o alvo fixamente com os olhos. Era um alvo normal: começava com um círculo branco, depois um preto, azul, vermelho e o centro era a amarelo. Ele disparou a acertou na divisão entre o azul e vermelho.
- Nada mau para um primeiro tiro. – afirmou May.
Ouviu-se um segundo tiro e a bala ficou ainda mais próxima do centro mas ainda na parte vermelha. Depois um a um dos concorrentes foram disparando e tentando a sua sorte.
- Agora Vince, é a tua vez. – anunciou Ebony.
- Ele não é ninguém importante? – perguntou uma voz abafada no fundo da sala. Mas não obteve resposta.
Vince pegou numa arma e segurou-a com as duas mãos, May fez sinal que se aproximar-se dela. Quando lá chegou esta esticou-se e encostou-lhe os lábios na testa enquanto lhe sussurrou:
- Boa sorte, pequeno. Acredito que a Ebony será tua.
Ele sorriu, a esperança estava restaurada. Caminhou para a marca no chão e olhou o alvo, os nervos eram imensos e ele não conseguia parar de tremer. Agarrava a arma com as duas mãos e apontava-a para o lado. Um momento de silêncio.
Do nada ouve-se um tiro. Riki desvia a cara, a tempo de não ser apanhado pela bala. Todos olham na direção de Vince, que continua a segurar a arma fumegante da mesma forma.
- Filho da puta! – berra Riki. Ebony agarra-lhe o braço com força. – Ias-me matando! Nem uma merda de uma arma sabes segurar? Ladrãozito do caralho!
A sua expressão era de pura raiva. Com um gesto forte libertou-se dos braços de Ebony que caiu no chão, caminhou na direção de Vince.
- Quem pensa que é, para disparar assim contra mim? Eu juro que vou dar cabo de ti! - todo o seu cavalheirismo tinha-se perdido nas primeiras palavras proferidas.
May e Daysuke ajudaram Ebony a levantar-se.
- Por favor, não faças nada Riki. – Pediu May.
Vince recuava à medida que Riki se aproximava dele, até que embateu no balcão. Todos os outros os olhavam, excitados com toda a cena.
Riki ergueu o punho, Vince encolheu-se, fechou os olhos e esperou a dar do murro. Ouviu o barulho da mão a bater na carne mas, nada sentiu. Abriu novamente os olhos e à sua frente estava Haine. Este olhava Riki com um olhar sereno.
- Porque te meteste à frente? – bufou Riki.
- Porque é que vais bater num ladrãozito? – questionou Haine.
- Ele ia-me matando! Sai-me da frente, moço! Ainda levas tu!
- Calma. – a voz de Haine era bastante calma, tal como a sua expressão. – Nunca pensei que um cavalheiro como tu levantasse a mão a “escumalha” como ele.
Haine riu-se, uma gargalhada irónica e bastante ruidosa.
- Tens razão. – conformou-se Riki. - Mas não tens que o defender, isto é entre nós.
Retirou-se em direção a Ebony.
- Desculpa, minha alma. Força a mais. – desculpou-se beijando-lhe a testa.
Mais ninguém proferiu uma palavra. Ebony voltou para os braços de Riki cabisbaixa, enquanto May se voltou a abraçar a Haine. Vince regressou à linha de marca e disparou. Acertou mesmo no início da parte amarela.
- A “escumalha” ainda te vai ensinar uma lição. – Haine fitou Riki.
- Não me faças perder a paciência!
- Um cavalheiro não devia perder a paciência tão facilmente, pois não Ebony? – May decidiu gozar um pouco com a situação também, afinal nunca gostara muito de Riki.
- O Riki é um verdadeiro cavalheiro e tu sabes bem disso! – ripostou Ebony com uma voz feroz. – Não é um ladrão procurado pelo “Papá”.
May riu-se para Haine e não disseram mais nada. A rivalidade entre as “irmãs” ia aumentando. Seguidamente Haine e Riki dispararam, ambos no centro do alvo. Foi eliminado um jogador e prosseguiram para o próximo jogo.
À medida que os jogos se iam jogando e que as pessoas iam sendo eliminadas, um boato começou a surgir em torno de Amaya: dizia-se que ela era virgem. E se esse boato fosse mesmo verdade, o prémio deste ano valia ouro! Uma mulher daquele calibre, por uma noite, para satisfazer todos os desejos, até mesmo os mais obscenos e ainda por cima VIRGEM!
- Ouvi dizer que a menina Amaya é imaculada…
- Eu ouvi dizer que ainda ninguém a conseguiu entrar na sua maravilhosa caverna…
Os murmurinhos ouviam-se em todo o saloon.
- A tua rapariga ainda é virgem? – questionou Riki.
- Não sei… - Haine estava a preparar-se para o 4º desafio, precisava de concentração.
- Não sabes? – Riki solta uma gargalhada. – Que raio de homem és tu, que nunca deste prazer à tua rapariga?
- Não preciso de fazer sexo com ela para lhe dar prazer.
- O que queres dizer com isso? Tentaste outras coisas? – Riki piscou o olho.
- Não. Existem vários tipos de prazer e, se me é permitido dar opinar, não creio que o sexual seja o melhor de todos. Acho que o prazer de ela saber que eu sou dela e que ela é minha, é bem melhor. – Ebony e May ouviam tudo em silêncio. – Mas tu não entendes o que isso é, pois não Riki?
- Claro que entendo! Um verdadeiro “gentleman” sabe como dar todos os tipos de prazer a uma mulher.
- Hum … ok. Agora deixa-me concentrar nesta prova, sim? – May riu-se abafadamente com este comentário de Haine.
- Pobre vagabundo! – Riki resmungou baixinho entre dentes.
Ebony levantou-se do colo de Riki e dirigiu-se à multidão:
- O quarto jogo, todos os cinco concorrentes que sobram irão jogar ao mesmo tempo. Um verdadeiro cavalheiro tem que ter destreza e rapidez para poder defender uma verdadeira donzela em perigo. Então, por favor, Riki, Haine, Vince, Dr. Max, Dru e todos os espectadores, sigam-me até ao armazém. Lá está montada uma pista de obstáculos que terão de percorrer no menor tempo possível, quem chegar em último lugar, será eliminado. Não existem regras para este jogo, vale tudo para conseguirem chegar à meta primeiro.
Assim que chegaram ao armazém, quando Ebony se preparava para falar, Amaya colocou-se na sua frente.
- Aqui vemos a pista de obstáculos… - foi interrompida por Ebony.
- Que pensas que estás a fazer? – murmurou-lhe ao ouvido num tom chateado.
- Nada, “big sister”[1]. – May respondeu no mesmo tom.
- Então cala-te e deixa-me apresentar.
- Não! – Amaya levantou a voz o que fez com que toda a gente perdesse o interesse na pista e olhasse agora diretamente para elas. – Isto é tanto teu como meu e eu tenho que fazer alguma coisa, não quero ser só um prémio!
Haine aproximou-se silenciosamente, esticou a mão para Ebony que, ainda incrédula, lhe deu a sua. Este beijou-a e encaminhou-a para junto dos outros. Então May continuou:
- Como podem ver o primeiro obstáculo é a tão famosa pista de pneus, seguido do muro de escalada, seguido pela ponte feita de cordas, irão fazer um pequeno sprint[2] e no final, como qualquer bom homem, irão rastejar por baixo de arame farpado, até aos pés das senhoras que estarão à vossa espera na meta. Por favor coloquem-se nos locais de partida e ao sinal da minha irmã. Obrigado.
Haine deu sinal a Ebony para que esta avançasse, esta colocou-se ao lado da linha de partida segurando um lenço de pano vermelho na mão. Ao largar do lenço os participantes lançaram-se à pista.
Vince conseguiu chegar em primeiro à ponte de cordas, seguido por Riki e Haine, respetivamente. A ponte era constituída por duas cordas colocadas paralelamente na vertical a uma distância de 4m do chão, com uma escada que lhe dava aceso. A corda de baixo servia para que se colocassem os pés e a de cima para que se agarrassem, de forma a ser mais fácil fazer a travessia.
Assim que Riki alcançou Vince, agarrou-o e fez com que ele se desequilibra-se, caindo ao chão. Riki continuou até à zona de sprint sem sequer olhar para trás. Haine desceu da ponte e ajudou Vince a levantar-se.
- Não, não! – berrou Vince.
- Que foi?
- Não consigo pousar o pé no chão. Segue sem mim, assim vais perder. – Vince apontou para os outros dois concorrentes que já estavam a chegar à ponte.
- Eu volto para te buscar.
- Até parece que vou morrer, anda lá! Tu queres isto mais que ninguém!
Haine pousou Vince encostado a uma das muitas prateleiras que existiam no armazém e olhou em frente. Riki estava parado na zona de sprint à sua espera. Ao chegar à sua beira Haine olhou-o com o maior do desprezo.
- Sabes que agora se tornou pessoal, não sabes? – perguntou.
- Não me digas que és gay e a May não sabe? – troçou Riki.
- Cala-te e corre! – assim que falou ambos sprintaram e correram em direção à zona do arame farpado.
Estavam lado a lado, baixaram-se e começaram a rastejar pelo chão, quando Haine sentiu uma dor muito forte nas costelas. Para e vê Riki chegar em primeiro lugar aos pés de Ebony que o aguardava eufórica.
May baixa-se e ajuda-o a levantar-se com um sorriso.
- Amaya, o Vince está lá atrás à espera que alguém o vá buscar.
- Porque é que ele não vem pelo seu pé? – pergunta Amaya.
- Porque este canalha empurrou-o da ponte abaixo. Ele deve ter o pé torcido ou assim, porque não se consegue levantar! – atirou Haine, com os olhos bem abertos e cheios de raiva olhava fixamente para Riki.
- Tu fizeste o quê? – berrou Ebony sem conseguir esconder a sua preocupação para com Vince.
Sem lhe responder Riki esticou a mão para trás e bateu na cara de Ebony. Um “ah!” espantado escapou-se da boca de May.
- Não lhe batas! – ripostou Amaya.
- Isso não são modos de me falares! – afirmou Riki para Ebony. – E tu pequena, vê lá se te portas como deve ser ou terei que te ensinar boas maneiras.
- Experimenta só tocar-lhe e quem te ensinará boas maneiras serei eu. – respondeu Haine.
- Chega à final e terás a tua oportunidade para me “ensinares boas maneiras”. – Riki olhou-o de forma provocadora.
- Isso é um desafio?
- Estás com medo de aceitá-lo?
- Irei chegar à final e irei-te ensinar uma lição! – disse Haine com toda a pujança[3].