Cap. III (part. 1) Ciaran colocou um alvo na parede ao lado das escadas, andou até ao junto do palco, que ficava do outro lado do saloon, e desenhou um risco no chão. Ebony estava abraçada a Riki, junto a Vince, Haine e May que ainda não se tinham separado. - Parece fácil… - disse Vince. - Sim, até mesmo para um ladrão de meia tijela como tu. – respondeu Riki com uma gargalhada. Haine preparou-se para ripostar quando Amaya apertou-lhe o braço com força, este trincou os lábios inferiores e engoliu em seco. - Então e tu rapaz? Já me pareces melhor que aquele ali! – perguntou Riki a Haine, inclinando a cabeça para Vince. - Então o quê? – a voz de Haine era calma. - Achas fácil? - Já acertei em pessoas a correr, acho que um alvo parado não é grande desafio. – Haine olhou para May. – Tens um cigarro? - Sim. – Ela deu-lhe um e acendeu-o - Pelo menos coragem tens. – Riki voltou a soltar uma gargalhada.   - Porquê? – Haine não tirava os olhos do alvo mesmo na frente destes, nunca olhando para Riki. - Vens para estes jogos sem um fato. Sabes que o nome é “Gentlemen’s Games”, por isso devias apresentar-te como um. - Não preciso de um fato para me comportar à altura do que a ocasião exige. May e Ebony olhavam, também, fixamente para o alvo, pedindo secretamente para que aqueles dois realmente se comportassem como cavalheiros. - Para além disso, sabendo que o “Papá” não gosta de ti, ainda tens a ousadia de reclamar uma filha dele como tua! – Riki mostrava-se orgulho de tudo o que sabia acerca de Haine. - Ela não é minha, ela não é de ninguém! É uma rapariga livre de ter as suas escolhas e de fazer o que lhe bem apetecer, se escolheu a minha companhia foi porque assim o quis. E sei do perigo que corro ao estar a seu lado, mas isso é algo menor comparado ao bem que me faz quando ela, simplesmente, me agarra pela mão ou pelo braço. May olhou para os olhos do rapaz e sorriu. “Ele é realmente alguém diferente de toda a gente que conheci”, pensou. Entretanto Ciaran aproximou-se de Ebony: - Tudo está pronto, Srª.. - Ok. – respondeu ao empregado baixo, aumentando depois o tom de voz para anunciar. – Muito bem, em cima do balcão estão Berretas, uma para cada um, cada uma com 2 balas. Iremos começar pelos convidados do Norte: Dom Armando, o senhor é o primeiro. Boa sorte. Um homem, já com uma certa idade, levantou-se pegou na primeira arma, olho o alvo fixamente com os olhos. Era um alvo normal: começava com um círculo branco, depois um preto, azul, vermelho e o centro era a amarelo. Ele disparou a acertou na divisão entre o azul e vermelho. - Nada mau para um primeiro tiro. – afirmou May. Ouviu-se um segundo tiro e a bala ficou ainda mais próxima do centro mas ainda na parte vermelha. Depois um a um dos concorrentes foram disparando e tentando a sua sorte. - Agora Vince, é a tua vez. – anunciou Ebony. - Ele não é ninguém importante? – perguntou uma  voz abafada no fundo da sala. Mas não obteve resposta.                 Vince pegou numa arma e segurou-a com as duas mãos, May fez sinal que se aproximar-se dela. Quando lá chegou esta esticou-se e encostou-lhe os lábios na testa enquanto lhe sussurrou:                 - Boa sorte, pequeno. Acredito que a Ebony será tua.                 Ele sorriu, a esperança estava restaurada. Caminhou para a marca no chão e olhou o alvo, os nervos eram imensos e ele não conseguia parar de tremer. Agarrava a arma com as duas mãos e apontava-a para o lado. Um momento de silêncio.                 Do nada ouve-se um tiro. Riki desvia a cara, a tempo de não ser apanhado pela bala. Todos olham na direção de Vince, que continua a segurar a arma fumegante da mesma forma.                 - Filho da puta! – berra Riki. Ebony agarra-lhe o braço com força. – Ias-me matando! Nem uma merda de uma arma sabes segurar? Ladrãozito do caralho!                 A sua expressão era de pura raiva. Com um gesto forte libertou-se dos braços de Ebony que caiu no chão, caminhou na direção de Vince.                 - Quem pensa que é, para disparar assim contra mim? Eu juro que vou dar cabo de ti! - todo o seu cavalheirismo tinha-se perdido nas primeiras palavras proferidas.                 May e Daysuke ajudaram Ebony a levantar-se.                 - Por favor, não faças nada Riki. – Pediu May.                 Vince recuava à medida que Riki se aproximava dele, até que embateu no balcão. Todos os outros os olhavam, excitados com toda a cena. Riki ergueu o punho, Vince encolheu-se, fechou os olhos e esperou a dar do murro. Ouviu o barulho da mão a bater na carne mas, nada sentiu. Abriu novamente os olhos e à sua frente estava Haine. Este olhava Riki com um olhar sereno. - Porque te meteste à frente? – bufou Riki. - Porque é que vais bater num ladrãozito? – questionou Haine. - Ele ia-me matando! Sai-me da frente, moço! Ainda levas tu! - Calma. – a voz de Haine era bastante calma, tal como a sua expressão. – Nunca pensei que um cavalheiro como tu levantasse a mão a “escumalha” como ele. Haine riu-se, uma gargalhada irónica e bastante ruidosa. - Tens razão. – conformou-se Riki. -  Mas não tens que o defender, isto é entre nós. Retirou-se em direção a Ebony. - Desculpa, minha alma. Força a mais. – desculpou-se beijando-lhe a testa. Mais ninguém proferiu uma palavra. Ebony voltou para os braços de Riki cabisbaixa, enquanto May se voltou a abraçar a Haine. Vince regressou à linha de marca e disparou. Acertou mesmo no início da parte amarela. - A “escumalha” ainda te vai ensinar uma lição. – Haine fitou Riki. - Não me faças perder a paciência! - Um cavalheiro não devia perder a paciência tão facilmente, pois não Ebony? – May decidiu gozar um pouco com a situação também, afinal nunca gostara muito de Riki. - O Riki é um verdadeiro cavalheiro e tu sabes bem disso! – ripostou Ebony com uma voz feroz. – Não é um ladrão procurado pelo “Papá”. May riu-se para Haine e não disseram mais nada. A rivalidade entre as “irmãs” ia aumentando. Seguidamente Haine e Riki dispararam, ambos no centro do alvo. Foi eliminado um jogador e prosseguiram para o próximo jogo. À medida que os jogos se iam jogando e que as pessoas iam sendo eliminadas, um boato começou a surgir em torno de Amaya: dizia-se que ela era virgem. E se esse boato fosse mesmo verdade, o prémio deste ano valia ouro! Uma mulher daquele calibre, por uma noite, para satisfazer todos os desejos, até mesmo os mais obscenos e ainda por cima VIRGEM! - Ouvi dizer que a menina Amaya é imaculada… - Eu ouvi dizer que ainda ninguém a conseguiu entrar na sua maravilhosa caverna… Os murmurinhos ouviam-se em todo o saloon. - A tua rapariga ainda é virgem? – questionou Riki. - Não sei… - Haine estava a preparar-se para o 4º desafio, precisava de concentração. - Não sabes? – Riki solta uma gargalhada. – Que raio de homem és tu, que nunca deste prazer à tua rapariga? - Não preciso de fazer sexo com ela para lhe dar prazer. - O que queres dizer com isso? Tentaste outras coisas? – Riki piscou o olho. - Não. Existem vários tipos de prazer e, se me é permitido dar opinar, não creio que o sexual seja o melhor de todos. Acho que o prazer de ela saber que eu sou dela e que ela é minha, é bem melhor. – Ebony e May ouviam tudo em silêncio. – Mas tu não entendes o que isso é, pois não Riki? - Claro que entendo! Um verdadeiro “gentleman” sabe como dar todos os tipos de prazer a uma mulher. - Hum … ok. Agora deixa-me concentrar nesta prova, sim? – May riu-se abafadamente com este comentário de Haine. - Pobre vagabundo! – Riki resmungou baixinho entre dentes. Ebony levantou-se do colo de Riki e dirigiu-se à multidão: - O quarto jogo, todos os cinco concorrentes que sobram irão jogar ao mesmo tempo. Um verdadeiro cavalheiro tem que ter destreza e rapidez para poder defender uma verdadeira donzela em perigo. Então, por favor, Riki, Haine, Vince, Dr. Max, Dru e todos os espectadores, sigam-me até ao armazém. Lá está montada uma pista de obstáculos que terão de percorrer no menor tempo possível, quem chegar em último lugar, será eliminado. Não existem regras para este jogo, vale tudo para conseguirem chegar à meta primeiro. Assim que chegaram ao armazém, quando Ebony se preparava para falar, Amaya colocou-se na sua frente. - Aqui vemos a pista de obstáculos… - foi interrompida por Ebony. - Que pensas que estás a fazer? – murmurou-lhe ao ouvido num tom chateado. - Nada, “big sister”[1]. – May respondeu no mesmo tom. - Então cala-te e deixa-me apresentar. - Não! – Amaya levantou a voz o que fez com que toda a gente perdesse o interesse na pista e olhasse agora diretamente para elas. – Isto é tanto teu como meu e eu tenho que fazer alguma coisa, não quero ser só um prémio! Haine aproximou-se silenciosamente, esticou a mão para Ebony que, ainda incrédula, lhe deu a sua. Este beijou-a e encaminhou-a para junto dos outros. Então May continuou: - Como podem ver o primeiro obstáculo é a tão famosa pista de pneus, seguido do muro de escalada, seguido pela ponte feita de cordas, irão fazer um pequeno sprint[2] e no final, como qualquer bom homem, irão rastejar por baixo de arame farpado, até aos pés das senhoras que estarão à vossa espera na meta. Por favor coloquem-se nos locais de partida e ao sinal da minha irmã. Obrigado. Haine deu sinal a Ebony para que esta avançasse, esta colocou-se ao lado da linha de partida segurando um lenço de pano vermelho na mão. Ao largar do lenço os participantes lançaram-se à pista. Vince conseguiu chegar em primeiro à ponte de cordas, seguido por Riki e Haine, respetivamente. A ponte era constituída por duas cordas colocadas paralelamente na vertical a uma distância de 4m do chão, com uma escada que lhe dava aceso. A corda de baixo servia para que se colocassem os pés e a de cima para que se agarrassem, de forma a ser mais fácil fazer a travessia. Assim que Riki alcançou Vince, agarrou-o e fez com que ele se desequilibra-se, caindo ao chão. Riki continuou até à zona de sprint sem sequer olhar para trás. Haine desceu da ponte e ajudou Vince a levantar-se. - Não, não! – berrou Vince. - Que foi? - Não consigo pousar o pé no chão. Segue sem mim, assim vais perder. – Vince apontou para os outros dois concorrentes que já estavam a chegar à ponte. - Eu volto para te buscar. - Até parece que vou morrer, anda lá! Tu queres isto mais que ninguém! Haine pousou Vince encostado a uma das muitas prateleiras que existiam no armazém e olhou em frente. Riki estava parado na zona de sprint à sua espera. Ao chegar à sua beira Haine olhou-o com o maior do desprezo. - Sabes que agora se tornou pessoal, não sabes? – perguntou. - Não me digas que és gay e a May não sabe? – troçou Riki. - Cala-te e corre! – assim que falou ambos sprintaram e correram em direção à zona do arame farpado. Estavam lado a lado, baixaram-se e começaram a rastejar pelo chão, quando Haine sentiu uma dor muito forte nas costelas. Para e vê Riki chegar em primeiro lugar aos pés de Ebony que o aguardava eufórica. May baixa-se e ajuda-o a levantar-se com um sorriso. - Amaya, o Vince está lá atrás à espera que alguém o vá buscar. - Porque é que ele não vem pelo seu pé? – pergunta Amaya. - Porque este canalha empurrou-o da ponte abaixo. Ele deve ter o pé torcido ou assim, porque não se consegue levantar! – atirou Haine, com os olhos bem abertos e cheios de raiva olhava fixamente para Riki. - Tu fizeste o quê? – berrou Ebony sem conseguir esconder a sua preocupação para com Vince. Sem lhe responder Riki esticou a mão para trás e bateu na cara de Ebony. Um “ah!” espantado escapou-se da boca de May. - Não lhe batas! – ripostou Amaya. - Isso não são modos de me falares! – afirmou Riki para Ebony. – E tu pequena, vê lá se te portas como deve ser ou terei que te ensinar boas maneiras. - Experimenta só tocar-lhe e quem te ensinará boas maneiras serei eu. – respondeu Haine. - Chega à final e terás a tua oportunidade para me “ensinares boas maneiras”. – Riki olhou-o de forma provocadora. - Isso é um desafio? - Estás com medo de aceitá-lo? - Irei chegar à final e irei-te ensinar uma lição! – disse Haine com toda a pujança[3].   [1] Big sister – expressão inglesa que significa “irmã mais velha”. [2] Sprint – corrida de velocidade, que percorre uma pequena distância. [3]  Pujança – significa que fez algo com toda a sua força. 

Cap. III (part. 1)

Ciaran colocou um alvo na parede ao lado das escadas, andou até ao junto do palco, que ficava do outro lado do saloon, e desenhou um risco no chão. Ebony estava abraçada a Riki, junto a Vince, Haine e May que ainda não se tinham separado.

- Parece fácil… - disse Vince.

- Sim, até mesmo para um ladrão de meia tijela como tu. – respondeu Riki com uma gargalhada.

Haine preparou-se para ripostar quando Amaya apertou-lhe o braço com força, este trincou os lábios inferiores e engoliu em seco.

- Então e tu rapaz? Já me pareces melhor que aquele ali! – perguntou Riki a Haine, inclinando a cabeça para Vince.

- Então o quê? – a voz de Haine era calma.

- Achas fácil?

- Já acertei em pessoas a correr, acho que um alvo parado não é grande desafio. – Haine olhou para May. – Tens um cigarro?

- Sim. – Ela deu-lhe um e acendeu-o

- Pelo menos coragem tens. – Riki voltou a soltar uma gargalhada.  

- Porquê? – Haine não tirava os olhos do alvo mesmo na frente destes, nunca olhando para Riki.

- Vens para estes jogos sem um fato. Sabes que o nome é “Gentlemen’s Games”, por isso devias apresentar-te como um.

- Não preciso de um fato para me comportar à altura do que a ocasião exige.

May e Ebony olhavam, também, fixamente para o alvo, pedindo secretamente para que aqueles dois realmente se comportassem como cavalheiros.

- Para além disso, sabendo que o “Papá” não gosta de ti, ainda tens a ousadia de reclamar uma filha dele como tua! – Riki mostrava-se orgulho de tudo o que sabia acerca de Haine.

- Ela não é minha, ela não é de ninguém! É uma rapariga livre de ter as suas escolhas e de fazer o que lhe bem apetecer, se escolheu a minha companhia foi porque assim o quis. E sei do perigo que corro ao estar a seu lado, mas isso é algo menor comparado ao bem que me faz quando ela, simplesmente, me agarra pela mão ou pelo braço.

May olhou para os olhos do rapaz e sorriu. “Ele é realmente alguém diferente de toda a gente que conheci”, pensou.

Entretanto Ciaran aproximou-se de Ebony:

- Tudo está pronto, Srª..

- Ok. – respondeu ao empregado baixo, aumentando depois o tom de voz para anunciar. – Muito bem, em cima do balcão estão Berretas, uma para cada um, cada uma com 2 balas. Iremos começar pelos convidados do Norte: Dom Armando, o senhor é o primeiro. Boa sorte.

Um homem, já com uma certa idade, levantou-se pegou na primeira arma, olho o alvo fixamente com os olhos. Era um alvo normal: começava com um círculo branco, depois um preto, azul, vermelho e o centro era a amarelo. Ele disparou a acertou na divisão entre o azul e vermelho.

- Nada mau para um primeiro tiro. – afirmou May.

Ouviu-se um segundo tiro e a bala ficou ainda mais próxima do centro mas ainda na parte vermelha. Depois um a um dos concorrentes foram disparando e tentando a sua sorte.

- Agora Vince, é a tua vez. – anunciou Ebony.

- Ele não é ninguém importante? – perguntou uma  voz abafada no fundo da sala. Mas não obteve resposta.

                Vince pegou numa arma e segurou-a com as duas mãos, May fez sinal que se aproximar-se dela. Quando lá chegou esta esticou-se e encostou-lhe os lábios na testa enquanto lhe sussurrou:

                - Boa sorte, pequeno. Acredito que a Ebony será tua.

                Ele sorriu, a esperança estava restaurada. Caminhou para a marca no chão e olhou o alvo, os nervos eram imensos e ele não conseguia parar de tremer. Agarrava a arma com as duas mãos e apontava-a para o lado. Um momento de silêncio.

                Do nada ouve-se um tiro. Riki desvia a cara, a tempo de não ser apanhado pela bala. Todos olham na direção de Vince, que continua a segurar a arma fumegante da mesma forma.

                - Filho da puta! – berra Riki. Ebony agarra-lhe o braço com força. – Ias-me matando! Nem uma merda de uma arma sabes segurar? Ladrãozito do caralho!

                A sua expressão era de pura raiva. Com um gesto forte libertou-se dos braços de Ebony que caiu no chão, caminhou na direção de Vince.

                - Quem pensa que é, para disparar assim contra mim? Eu juro que vou dar cabo de ti! - todo o seu cavalheirismo tinha-se perdido nas primeiras palavras proferidas.

                May e Daysuke ajudaram Ebony a levantar-se.

                - Por favor, não faças nada Riki. – Pediu May.

                Vince recuava à medida que Riki se aproximava dele, até que embateu no balcão. Todos os outros os olhavam, excitados com toda a cena.

Riki ergueu o punho, Vince encolheu-se, fechou os olhos e esperou a dar do murro. Ouviu o barulho da mão a bater na carne mas, nada sentiu. Abriu novamente os olhos e à sua frente estava Haine. Este olhava Riki com um olhar sereno.

- Porque te meteste à frente? – bufou Riki.

- Porque é que vais bater num ladrãozito? – questionou Haine.

- Ele ia-me matando! Sai-me da frente, moço! Ainda levas tu!

- Calma. – a voz de Haine era bastante calma, tal como a sua expressão. – Nunca pensei que um cavalheiro como tu levantasse a mão a “escumalha” como ele.

Haine riu-se, uma gargalhada irónica e bastante ruidosa.

- Tens razão. – conformou-se Riki. -  Mas não tens que o defender, isto é entre nós.

Retirou-se em direção a Ebony.

- Desculpa, minha alma. Força a mais. – desculpou-se beijando-lhe a testa.

Mais ninguém proferiu uma palavra. Ebony voltou para os braços de Riki cabisbaixa, enquanto May se voltou a abraçar a Haine. Vince regressou à linha de marca e disparou. Acertou mesmo no início da parte amarela.

- A “escumalha” ainda te vai ensinar uma lição. – Haine fitou Riki.

- Não me faças perder a paciência!

- Um cavalheiro não devia perder a paciência tão facilmente, pois não Ebony? – May decidiu gozar um pouco com a situação também, afinal nunca gostara muito de Riki.

- O Riki é um verdadeiro cavalheiro e tu sabes bem disso! – ripostou Ebony com uma voz feroz. – Não é um ladrão procurado pelo “Papá”.

May riu-se para Haine e não disseram mais nada. A rivalidade entre as “irmãs” ia aumentando. Seguidamente Haine e Riki dispararam, ambos no centro do alvo. Foi eliminado um jogador e prosseguiram para o próximo jogo.

À medida que os jogos se iam jogando e que as pessoas iam sendo eliminadas, um boato começou a surgir em torno de Amaya: dizia-se que ela era virgem. E se esse boato fosse mesmo verdade, o prémio deste ano valia ouro! Uma mulher daquele calibre, por uma noite, para satisfazer todos os desejos, até mesmo os mais obscenos e ainda por cima VIRGEM!

- Ouvi dizer que a menina Amaya é imaculada…

- Eu ouvi dizer que ainda ninguém a conseguiu entrar na sua maravilhosa caverna…

Os murmurinhos ouviam-se em todo o saloon.

- A tua rapariga ainda é virgem? – questionou Riki.

- Não sei… - Haine estava a preparar-se para o 4º desafio, precisava de concentração.

- Não sabes? – Riki solta uma gargalhada. – Que raio de homem és tu, que nunca deste prazer à tua rapariga?

- Não preciso de fazer sexo com ela para lhe dar prazer.

- O que queres dizer com isso? Tentaste outras coisas? – Riki piscou o olho.

- Não. Existem vários tipos de prazer e, se me é permitido dar opinar, não creio que o sexual seja o melhor de todos. Acho que o prazer de ela saber que eu sou dela e que ela é minha, é bem melhor. – Ebony e May ouviam tudo em silêncio. – Mas tu não entendes o que isso é, pois não Riki?

- Claro que entendo! Um verdadeiro “gentleman” sabe como dar todos os tipos de prazer a uma mulher.

- Hum … ok. Agora deixa-me concentrar nesta prova, sim? – May riu-se abafadamente com este comentário de Haine.

- Pobre vagabundo! – Riki resmungou baixinho entre dentes.

Ebony levantou-se do colo de Riki e dirigiu-se à multidão:

- O quarto jogo, todos os cinco concorrentes que sobram irão jogar ao mesmo tempo. Um verdadeiro cavalheiro tem que ter destreza e rapidez para poder defender uma verdadeira donzela em perigo. Então, por favor, Riki, Haine, Vince, Dr. Max, Dru e todos os espectadores, sigam-me até ao armazém. Lá está montada uma pista de obstáculos que terão de percorrer no menor tempo possível, quem chegar em último lugar, será eliminado. Não existem regras para este jogo, vale tudo para conseguirem chegar à meta primeiro.

Assim que chegaram ao armazém, quando Ebony se preparava para falar, Amaya colocou-se na sua frente.

- Aqui vemos a pista de obstáculos… - foi interrompida por Ebony.

- Que pensas que estás a fazer? – murmurou-lhe ao ouvido num tom chateado.

- Nada, “big sister”[1]. – May respondeu no mesmo tom.

- Então cala-te e deixa-me apresentar.

- Não! – Amaya levantou a voz o que fez com que toda a gente perdesse o interesse na pista e olhasse agora diretamente para elas. – Isto é tanto teu como meu e eu tenho que fazer alguma coisa, não quero ser só um prémio!

Haine aproximou-se silenciosamente, esticou a mão para Ebony que, ainda incrédula, lhe deu a sua. Este beijou-a e encaminhou-a para junto dos outros. Então May continuou:

- Como podem ver o primeiro obstáculo é a tão famosa pista de pneus, seguido do muro de escalada, seguido pela ponte feita de cordas, irão fazer um pequeno sprint[2] e no final, como qualquer bom homem, irão rastejar por baixo de arame farpado, até aos pés das senhoras que estarão à vossa espera na meta. Por favor coloquem-se nos locais de partida e ao sinal da minha irmã. Obrigado.

Haine deu sinal a Ebony para que esta avançasse, esta colocou-se ao lado da linha de partida segurando um lenço de pano vermelho na mão. Ao largar do lenço os participantes lançaram-se à pista.

Vince conseguiu chegar em primeiro à ponte de cordas, seguido por Riki e Haine, respetivamente. A ponte era constituída por duas cordas colocadas paralelamente na vertical a uma distância de 4m do chão, com uma escada que lhe dava aceso. A corda de baixo servia para que se colocassem os pés e a de cima para que se agarrassem, de forma a ser mais fácil fazer a travessia.

Assim que Riki alcançou Vince, agarrou-o e fez com que ele se desequilibra-se, caindo ao chão. Riki continuou até à zona de sprint sem sequer olhar para trás. Haine desceu da ponte e ajudou Vince a levantar-se.

- Não, não! – berrou Vince.

- Que foi?

- Não consigo pousar o pé no chão. Segue sem mim, assim vais perder. – Vince apontou para os outros dois concorrentes que já estavam a chegar à ponte.

- Eu volto para te buscar.

- Até parece que vou morrer, anda lá! Tu queres isto mais que ninguém!

Haine pousou Vince encostado a uma das muitas prateleiras que existiam no armazém e olhou em frente. Riki estava parado na zona de sprint à sua espera. Ao chegar à sua beira Haine olhou-o com o maior do desprezo.

- Sabes que agora se tornou pessoal, não sabes? – perguntou.

- Não me digas que és gay e a May não sabe? – troçou Riki.

- Cala-te e corre! – assim que falou ambos sprintaram e correram em direção à zona do arame farpado.

Estavam lado a lado, baixaram-se e começaram a rastejar pelo chão, quando Haine sentiu uma dor muito forte nas costelas. Para e vê Riki chegar em primeiro lugar aos pés de Ebony que o aguardava eufórica.

May baixa-se e ajuda-o a levantar-se com um sorriso.

- Amaya, o Vince está lá atrás à espera que alguém o vá buscar.

- Porque é que ele não vem pelo seu pé? – pergunta Amaya.

- Porque este canalha empurrou-o da ponte abaixo. Ele deve ter o pé torcido ou assim, porque não se consegue levantar! – atirou Haine, com os olhos bem abertos e cheios de raiva olhava fixamente para Riki.

- Tu fizeste o quê? – berrou Ebony sem conseguir esconder a sua preocupação para com Vince.

Sem lhe responder Riki esticou a mão para trás e bateu na cara de Ebony. Um “ah!” espantado escapou-se da boca de May.

- Não lhe batas! – ripostou Amaya.

- Isso não são modos de me falares! – afirmou Riki para Ebony. – E tu pequena, vê lá se te portas como deve ser ou terei que te ensinar boas maneiras.

- Experimenta só tocar-lhe e quem te ensinará boas maneiras serei eu. – respondeu Haine.

- Chega à final e terás a tua oportunidade para me “ensinares boas maneiras”. – Riki olhou-o de forma provocadora.

- Isso é um desafio?

- Estás com medo de aceitá-lo?

- Irei chegar à final e irei-te ensinar uma lição! – disse Haine com toda a pujança[3].  



[1] Big sister – expressão inglesa que significa “irmã mais velha”.

[2] Sprint – corrida de velocidade, que percorre uma pequena distância.

[3]  Pujança – significa que fez algo com toda a sua força. 

Cap. II (part.2) Haine olhara para si metido numa banheira, escondido de alguém que nem ele sabe  quem é, decide então sair. Pegou na pequena toalha e enroscou-a na cintura e, quando ia a abrir o ralo da banheira ouviu passos no corredor. “Foda-se! Já cá estão!” pensou com os seus botões. “ Não me vou assustar”, passou a mão na costura da ferida. Pegou na arma e esperou silenciosamente. Tinha ouvido tiros, será que não tinham morrido todos? Será que as miúdas estavam bem? Será que a Amaya estava bem? Tudo lhe passara pela cabeça naquele momento. A porta do quarto abriu-se e ele ouviu passos, a maçaneta rodou e ele apontou a arma à porta. Amaya entrou de rompante na casa de banho, nem deu pelo rapaz segurar a arma. Haine assustou-se, quase lhe disparara. A rapariga deixou-se cair nos seus braços, ele agarrou-a, segurando a arma só com uma mão. Ela começou a chorar e Haine agarrou-a com mais força. Assim ficaram. O vapor da água quente pairava no ar e o cheiro a pêssego inundava-lhes os pensamentos. May soluçou, Haine respirou fundo e afagou-lhe o cabelo. Ela limpou as lágrimas e riu-se. - Afinal acertaram-me duas vezes… - Ela tentava parecer feliz. Apontou para o pano enroscado no braço. - Eu notei. Deixas-me desinfetar isso? - Pode ser… Ele agarrou-lhe o queixo delicadamente, fê-la olhar para ele e sorriu. - Vamos tratar disso, pequena. Foram para o quarto, Haine retirou o pano que lhe cobria a ferida, colocou álcool e envolveu-a em ligadura. - Agora é a minha vez de te meter ligadura. – May sorriu. Começou a enroscar o torso do rapaz para que a ferida cicatriza-se mais rapidamente. No final encostou-se ao peito nu dele. - Cheiras a pêssegos … - Amaya envergonhou-se, estava a ser demasiadamente humana com aquele rapaz, que afinal não passava de um simples ladrão. - Sim… - Ele deixou-a estar encostada. De repente May levanta-se. - Ainda estás nu. – soltou uma das suas gargalhadas. - Sim, mas também não tenho grande roupa. Cortaste-me a camisola. - Irei arranjar-te algo, mas primeiro vou-me vestir. Dirigiu-se então para a casa de banho, vestiu-se e saiu pela porta em direção ao quarto de Daisuke. Entrou e passado pouco tempo saiu de lá com roupa na mão. - Isto era do Dai, quando ele era mais novo. – afirmou, entregando-lhe a roupa para as mãos. Havia uma capa preta, de manga caviada, que tinha um carapuço; umas calças pretas e uns bóxeres. - Servirá decerto. – agradeceu unindo com a cabeça. Só agora notara que a rapariga estava de vestido: era preto, muito justo, bastante decotado e, apesar de ser até aos pés, tinha uma racha lateral que lhe chegava ao início da coxa. Usava ainda umas meias de rede preta, até cima do joelho. - Para onde vamos nós, assim todas produzidas? – Haine piscou-lhe o olho. - Veste-te e verás. – abriu a porta da casa de banho e fez-lhe sinal para que este entrasse. Ele obedeceu, May fechou a porta e sentou-se na cama à espera do rapaz. Entretanto no quarto de Ebony alguém bateu á porta. - Entre, a porta está aberta. - Já é seguro, Senhora? – era Ciaran, ainda com as armas na mão, seguido por Vince. - Sim, é. – respondeu, sem tirar os olhos do espelho onde se maquilhava. – Mas deixe aqui o rapaz e vá ajudar o Dai a arrumar o saloon, hoje é um dia importante! Ciaran fez uma vénia e saiu sem dizer uma palavra. - Hoje é um dia importante, porquê? - Arranja-te e verás … - Ebony não gostava quando Vince queria saber mais do que lhe dizia respeito. - Uuuh, eu gosto quando és misteriosa! - Por favor! – as palavras eram ditas com desprezo. Continuava a arranjar-se, trazia um vestido vermelho que lhe ficava pouco abaixo do joelho com a frente aberta, só com umas tiras de pano a unir os dois lados do vestido, tinha mangas justas até aos cotovelos, depois tornavam-se largas e caídas. - Tenho a dizer-te que estás de cortar a respiração a qualquer um… - A ideia é essa, meu caro. – estava a colocar o batom, olhou para Vince e atirou-lhe um beijo. Voltam a bater à porta, era novamente Ciaran. - A sua irmã mandou-me entregar isto. – disse o empregado, esticando os braços onde trazia um fato. - Ok, obrigado. Já acabaram as limpezas? - Não, Srª.. Irei retomar as limpezas agora mesmo… - O homem voltou a sair, despedindo-se só com uma vénia. - Veste isso. – ordenou Ebony apontando para o fato que o empregado deixara em cima da cama. Entrou na casa de banho e fechou a porta. Quando todos estavam prontos encontraram-se no corredor. - Porque é que ele não está de fato? – Vince apontara para Haine. - Porque ele é um Gentlemen, com ou sem fato. – respondeu calmamente May ao agarrar a mão de Haine. - E eu? - perguntou Vince. – Não sou? - Tu ainda és um miúdo… - afirmou Ebony. - A tua irmã também é mais nova que tu e está como tu! – insistia ele. - Dai ela estar com um vestido diferente do meu… - Explica-me isso melhor, por favor. – pediu. - Pára de ser curioso, kiddo[1]! – entreviu Haine, ajudando May a descer a última escada que dava para o saloon. Assim que olhou bem para o saloon, entendeu que todas as janelas e portas estavam fechadas, que 4 ou 5 homens estavam sentados nas mesas, todos muito bem arranjados, umas quantas miúdas bem-vestidas estavam de pé e que, ainda, na mesa central, a redonda que era rodeada por sofás de madeira preta, forrados a veludo vermelho, estava um único rapaz, com uma roupa estranha a fumar. - Bem-vindos a mais uns anuais jogos de cavalheiros! – anunciou Ebony subindo para o palco – Como sabem, é tradição nossa, na noite de Ano Novo, fazer os jogos de cavalheiros… Amaya apontou para a mesa que estava mais próxima do palco. Sentaram-se os três e May deixou a sua cabeça cair no ombro de Haine, para que todos (e TODAS) soubessem que ele estava tomado. Era a 1ª vez que saía do quarto desde que ali chegara. Nem se apercebera que já era Ano Novo. “Mais um ano que começava, menos um ano de vida… “ O seu pensamento era triste, nunca tinha sido muito feliz, por isso não estranhara. Um toque de uma pele suave, no se ombro destapado fê-lo olhar para baixo, era May que se ajeitara. Sorriu. Agora tinha algo com que se sentir minimamente feliz, aquela maravilhosa rapariga que lhe salvara a vida. Só tinha sentido isso uma vez, quando salvara um rapaz de 12 anos que chorava no meio de um monte de corpos e de sangue. Ele só estava a tentar esconder-se do calor, dai ter entrado naquela casa que parecia abandonada. Mas deu de caras com aquela cena, um monte de pessoas esquartejadas no chão e um rapaz pequeno a chorar a um canto, ainda com sangue. Nunca se esquecera desse dia, da cor escarlate do sangue ao sol e o cheiro. Aquele cheiro nunca lhe saíra da cabeça! Não perguntou porquê, nem o que tinha acontecido ali, pegou-o pela mão e levou-o consigo. Criou-o como se de um irmão trata-se, ensinou-lhe tudo o que sabia e mostrou-lhe a arte de roubar. Ambos se tornaram inseparáveis, mas agora que ele já era aquele rapaz, “maior e vacinado”[2], vestido de fato que mirava Ebony com todo o deleite que conseguia expressar, deixara de sentir a necessidade de cuidar dele. Vince já não precisava dele e Haine precisava de ter alguém com quem se preocupar, alguém para a amar, para se sentir vivo… - Agora é melhor prestarem atenção, a minha irmã vai explicar as regras. – os seus pensamentos foram interrompidos pela voz grave de May. - Regras? – perguntou Vince. - Dos jogos de cavalheiros. E Ebony continuava a falar no palco: - Muito bem, irei então relembrar as regras dos Jogos de Cavalheiros. Existirão 7 jogos, cada um mais difícil que o outro. Todos os participantes jogam o primeiro e, em cada jogo, um de vós será eliminado, os últimos dois disputaram a tão esperada “final”: o duelo corpo a corpo. Quem ganhar terá o direito de escolher a mulher, de entre todas nós, incluindo eu e a minha irmã, com quem quer passar a noite. – ouviu-se um murmúrio por toda a sala. – Sim, este ano eu e a minha irmã seremos também “prémios” do jogo. E pela primeira vez, quem perder não sairá de mãos a abanar. Visto que pagaram bastante mais este ano que nos outros para se inscreverem e que os convites foram ainda mais exclusivos, iremos sortear as restantes senhoras para cada senhor, através do método dos papéis. E o tempo que terão para estar com elas irá depender da classificação que obterem. - Isto é verdade May? – sussurrou Haine. - O quê? - Vocês serão meros prémios para este monte de homens excitados? - Não, porque eu espero que ganhes. – disse-o secamente. - Então irei ganhar. – prometeu-lhe ele com um beijo na testa. - E quem é aquele, na mesa central, que não tira os olhos da Ebony? – a voz de Vince demonstrava ciúme. - É o Riki, o dana[3] dos tempos modernos da minha irmã. - Dana? – questionou Vince. - O homem que a comprou, kiddo. – respondeu Haine. – Ela é a amante oficial dele… A cara de Vince estava cada vez mais triste. A voz de Ebony, que se ouvia entre os murmúrios espantados dos participantes, ainda incrédulos pelas «Meninas do “Papá”» fazerem parte dos “prémios”. Mas, a cada palavra dela, ele sentia-se mais triste: ela nunca poderia ser realmente dele. - Não serão toleradas batotas, sendo imediatamente punidos, nem golpes baixos. E sem mais nada a acrescentar irei chamar o homem que conseguiu o meu coração e o meu corpo: Riki Akira[4]. – anunciou Ebony. Riki esmagou o cigarro no cinzeiro, levantou-se calmamente e caminhou em direção ao palco enquanto o som das palmas se espalhava pela sala. Quando chegou à beira da Ebony, agarrou-a pela cintura, inclinou-a e beijou-lhe o pescoço. - Meus caros adversários. Sim, adversários pois também irei participar, não vos ia dar esta maravilha humana de mão beijada! – soltou uma gargalhada forte. – Irei agora contar-vos a história destes jogos… Enquanto Riki falava, Vince fitava-o fixamente: era alto, com um cabelo castanho, longo atado num puxo, que lhe deixava uma franja irregular na frente da cara, e com uns olhos negros como a noite. Trazia vestido um fato com a camisa aberta na frente, deixando à mostra o seu tronco extremamente musculado. - Se não descolas do moço, daqui a nada mata-lo com os olhos! – a voz de Haine e o riso contido de Amaya trouxeram-no para a realidade. - Agora iria pedir a todos que se levantassem e aos empregados que arrumassem as mesas centrais para termos espaço para realizar os nossos jogos. – pediu Riki. Mal acabou de falar toda a gente estava de pé e arrumaram-se para as laterais do saloon todos os sofás e as mesas foram colocadas no armazém. - Obrigado querido. – agradeceu Ebony assim que Riki acabou de falar. Esperou que se arrumasse o saloon e prosseguiu – Como sabem, os 6 primeiros jogos serão sorteados. Vamos ver qual será o vosso primeiro desafio. Ciaran levantou-se com um pote de barro nas mãos que dizia “1º desafio” e subiu ao palco.                 - Para dar-me sorte. – afirmou Riki  depois de beijar a mão com que Ebony iria tirar o primeiro papel.                 A rapariga meteu a mão no pote, agarrou um papel, desembrulhou-o e leu em voz alta:                 - Tiro ao alvo! Este será o primeiro jogo. É simples: consiste em tentar acertar o mais próximo possível da zona central do alvo, quem disparar o mais afastado desta, será eliminado. Mas só terão direito a duas balas. Então que comecem os Jogos de Cavalheiros! [1] Kiddo – termo usado no calão americano, sendo um termo pejorativo, que substitui a palavra “kid”, cujo significado é miúdo. [2] “Maior e vacinado” – expressão popular que significa alguém que já sabe tomar conta de si. [3] Dana – homem rico, que na cultura japonesa possui uma gueixa. [4] Akira – nome de origem japonesa, cujo significado é “o inteligente”.

Cap. II (part.2)

Haine olhara para si metido numa banheira, escondido de alguém que nem ele sabe  quem é, decide então sair. Pegou na pequena toalha e enroscou-a na cintura e, quando ia a abrir o ralo da banheira ouviu passos no corredor.

“Foda-se! Já cá estão!” pensou com os seus botões. “ Não me vou assustar”, passou a mão na costura da ferida. Pegou na arma e esperou silenciosamente. Tinha ouvido tiros, será que não tinham morrido todos? Será que as miúdas estavam bem? Será que a Amaya estava bem? Tudo lhe passara pela cabeça naquele momento. A porta do quarto abriu-se e ele ouviu passos, a maçaneta rodou e ele apontou a arma à porta.

Amaya entrou de rompante na casa de banho, nem deu pelo rapaz segurar a arma. Haine assustou-se, quase lhe disparara. A rapariga deixou-se cair nos seus braços, ele agarrou-a, segurando a arma só com uma mão. Ela começou a chorar e Haine agarrou-a com mais força. Assim ficaram. O vapor da água quente pairava no ar e o cheiro a pêssego inundava-lhes os pensamentos.

May soluçou, Haine respirou fundo e afagou-lhe o cabelo. Ela limpou as lágrimas e riu-se.

- Afinal acertaram-me duas vezes… - Ela tentava parecer feliz. Apontou para o pano enroscado no braço.

- Eu notei. Deixas-me desinfetar isso?

- Pode ser…

Ele agarrou-lhe o queixo delicadamente, fê-la olhar para ele e sorriu.

- Vamos tratar disso, pequena.

Foram para o quarto, Haine retirou o pano que lhe cobria a ferida, colocou álcool e envolveu-a em ligadura.

- Agora é a minha vez de te meter ligadura. – May sorriu.

Começou a enroscar o torso do rapaz para que a ferida cicatriza-se mais rapidamente. No final encostou-se ao peito nu dele.

- Cheiras a pêssegos … - Amaya envergonhou-se, estava a ser demasiadamente humana com aquele rapaz, que afinal não passava de um simples ladrão.

- Sim… - Ele deixou-a estar encostada.

De repente May levanta-se.

- Ainda estás nu. – soltou uma das suas gargalhadas.

- Sim, mas também não tenho grande roupa. Cortaste-me a camisola.

- Irei arranjar-te algo, mas primeiro vou-me vestir.

Dirigiu-se então para a casa de banho, vestiu-se e saiu pela porta em direção ao quarto de Daisuke. Entrou e passado pouco tempo saiu de lá com roupa na mão.

- Isto era do Dai, quando ele era mais novo. – afirmou, entregando-lhe a roupa para as mãos. Havia uma capa preta, de manga caviada, que tinha um carapuço; umas calças pretas e uns bóxeres.

- Servirá decerto. – agradeceu unindo com a cabeça.

Só agora notara que a rapariga estava de vestido: era preto, muito justo, bastante decotado e, apesar de ser até aos pés, tinha uma racha lateral que lhe chegava ao início da coxa. Usava ainda umas meias de rede preta, até cima do joelho.

- Para onde vamos nós, assim todas produzidas? – Haine piscou-lhe o olho.

- Veste-te e verás. – abriu a porta da casa de banho e fez-lhe sinal para que este entrasse. Ele obedeceu, May fechou a porta e sentou-se na cama à espera do rapaz.

Entretanto no quarto de Ebony alguém bateu á porta.

- Entre, a porta está aberta.

- Já é seguro, Senhora? – era Ciaran, ainda com as armas na mão, seguido por Vince.

- Sim, é. – respondeu, sem tirar os olhos do espelho onde se maquilhava. – Mas deixe aqui o rapaz e vá ajudar o Dai a arrumar o saloon, hoje é um dia importante!

Ciaran fez uma vénia e saiu sem dizer uma palavra.

- Hoje é um dia importante, porquê?

- Arranja-te e verás … - Ebony não gostava quando Vince queria saber mais do que lhe dizia respeito.

- Uuuh, eu gosto quando és misteriosa!

- Por favor! – as palavras eram ditas com desprezo. Continuava a arranjar-se, trazia um vestido vermelho que lhe ficava pouco abaixo do joelho com a frente aberta, só com umas tiras de pano a unir os dois lados do vestido, tinha mangas justas até aos cotovelos, depois tornavam-se largas e caídas.

- Tenho a dizer-te que estás de cortar a respiração a qualquer um…

- A ideia é essa, meu caro. – estava a colocar o batom, olhou para Vince e atirou-lhe um beijo.

Voltam a bater à porta, era novamente Ciaran.

- A sua irmã mandou-me entregar isto. – disse o empregado, esticando os braços onde trazia um fato.

- Ok, obrigado. Já acabaram as limpezas?

- Não, Srª.. Irei retomar as limpezas agora mesmo… - O homem voltou a sair, despedindo-se só com uma vénia.

- Veste isso. – ordenou Ebony apontando para o fato que o empregado deixara em cima da cama. Entrou na casa de banho e fechou a porta.

Quando todos estavam prontos encontraram-se no corredor.

- Porque é que ele não está de fato? – Vince apontara para Haine.

- Porque ele é um Gentlemen, com ou sem fato. – respondeu calmamente May ao agarrar a mão de Haine.

- E eu? - perguntou Vince. – Não sou?

- Tu ainda és um miúdo… - afirmou Ebony.

- A tua irmã também é mais nova que tu e está como tu! – insistia ele.

- Dai ela estar com um vestido diferente do meu…

- Explica-me isso melhor, por favor. – pediu.

- Pára de ser curioso, kiddo[1]! – entreviu Haine, ajudando May a descer a última escada que dava para o saloon.

Assim que olhou bem para o saloon, entendeu que todas as janelas e portas estavam fechadas, que 4 ou 5 homens estavam sentados nas mesas, todos muito bem arranjados, umas quantas miúdas bem-vestidas estavam de pé e que, ainda, na mesa central, a redonda que era rodeada por sofás de madeira preta, forrados a veludo vermelho, estava um único rapaz, com uma roupa estranha a fumar.

- Bem-vindos a mais uns anuais jogos de cavalheiros! – anunciou Ebony subindo para o palco – Como sabem, é tradição nossa, na noite de Ano Novo, fazer os jogos de cavalheiros…

Amaya apontou para a mesa que estava mais próxima do palco. Sentaram-se os três e May deixou a sua cabeça cair no ombro de Haine, para que todos (e TODAS) soubessem que ele estava tomado.

Era a 1ª vez que saía do quarto desde que ali chegara. Nem se apercebera que já era Ano Novo. “Mais um ano que começava, menos um ano de vida… “ O seu pensamento era triste, nunca tinha sido muito feliz, por isso não estranhara. Um toque de uma pele suave, no se ombro destapado fê-lo olhar para baixo, era May que se ajeitara. Sorriu. Agora tinha algo com que se sentir minimamente feliz, aquela maravilhosa rapariga que lhe salvara a vida.

Só tinha sentido isso uma vez, quando salvara um rapaz de 12 anos que chorava no meio de um monte de corpos e de sangue. Ele só estava a tentar esconder-se do calor, dai ter entrado naquela casa que parecia abandonada. Mas deu de caras com aquela cena, um monte de pessoas esquartejadas no chão e um rapaz pequeno a chorar a um canto, ainda com sangue. Nunca se esquecera desse dia, da cor escarlate do sangue ao sol e o cheiro. Aquele cheiro nunca lhe saíra da cabeça! Não perguntou porquê, nem o que tinha acontecido ali, pegou-o pela mão e levou-o consigo. Criou-o como se de um irmão trata-se, ensinou-lhe tudo o que sabia e mostrou-lhe a arte de roubar. Ambos se tornaram inseparáveis, mas agora que ele já era aquele rapaz, “maior e vacinado”[2], vestido de fato que mirava Ebony com todo o deleite que conseguia expressar, deixara de sentir a necessidade de cuidar dele. Vince já não precisava dele e Haine precisava de ter alguém com quem se preocupar, alguém para a amar, para se sentir vivo…

- Agora é melhor prestarem atenção, a minha irmã vai explicar as regras. – os seus pensamentos foram interrompidos pela voz grave de May.

- Regras? – perguntou Vince.

- Dos jogos de cavalheiros.

E Ebony continuava a falar no palco:

- Muito bem, irei então relembrar as regras dos Jogos de Cavalheiros. Existirão 7 jogos, cada um mais difícil que o outro. Todos os participantes jogam o primeiro e, em cada jogo, um de vós será eliminado, os últimos dois disputaram a tão esperada “final”: o duelo corpo a corpo. Quem ganhar terá o direito de escolher a mulher, de entre todas nós, incluindo eu e a minha irmã, com quem quer passar a noite. – ouviu-se um murmúrio por toda a sala. – Sim, este ano eu e a minha irmã seremos também “prémios” do jogo. E pela primeira vez, quem perder não sairá de mãos a abanar. Visto que pagaram bastante mais este ano que nos outros para se inscreverem e que os convites foram ainda mais exclusivos, iremos sortear as restantes senhoras para cada senhor, através do método dos papéis. E o tempo que terão para estar com elas irá depender da classificação que obterem.

- Isto é verdade May? – sussurrou Haine.

- O quê?

- Vocês serão meros prémios para este monte de homens excitados?

- Não, porque eu espero que ganhes. – disse-o secamente.

- Então irei ganhar. – prometeu-lhe ele com um beijo na testa.

- E quem é aquele, na mesa central, que não tira os olhos da Ebony? – a voz de Vince demonstrava ciúme.

- É o Riki, o dana[3] dos tempos modernos da minha irmã.

- Dana? – questionou Vince.

- O homem que a comprou, kiddo. – respondeu Haine. – Ela é a amante oficial dele…

A cara de Vince estava cada vez mais triste. A voz de Ebony, que se ouvia entre os murmúrios espantados dos participantes, ainda incrédulos pelas «Meninas do “Papá”» fazerem parte dos “prémios”. Mas, a cada palavra dela, ele sentia-se mais triste: ela nunca poderia ser realmente dele.

- Não serão toleradas batotas, sendo imediatamente punidos, nem golpes baixos. E sem mais nada a acrescentar irei chamar o homem que conseguiu o meu coração e o meu corpo: Riki Akira[4]. – anunciou Ebony.

Riki esmagou o cigarro no cinzeiro, levantou-se calmamente e caminhou em direção ao palco enquanto o som das palmas se espalhava pela sala. Quando chegou à beira da Ebony, agarrou-a pela cintura, inclinou-a e beijou-lhe o pescoço.

- Meus caros adversários. Sim, adversários pois também irei participar, não vos ia dar esta maravilha humana de mão beijada! – soltou uma gargalhada forte. – Irei agora contar-vos a história destes jogos…

Enquanto Riki falava, Vince fitava-o fixamente: era alto, com um cabelo castanho, longo atado num puxo, que lhe deixava uma franja irregular na frente da cara, e com uns olhos negros como a noite. Trazia vestido um fato com a camisa aberta na frente, deixando à mostra o seu tronco extremamente musculado.

- Se não descolas do moço, daqui a nada mata-lo com os olhos! – a voz de Haine e o riso contido de Amaya trouxeram-no para a realidade.

- Agora iria pedir a todos que se levantassem e aos empregados que arrumassem as mesas centrais para termos espaço para realizar os nossos jogos. – pediu Riki. Mal acabou de falar toda a gente estava de pé e arrumaram-se para as laterais do saloon todos os sofás e as mesas foram colocadas no armazém.

- Obrigado querido. – agradeceu Ebony assim que Riki acabou de falar. Esperou que se arrumasse o saloon e prosseguiu – Como sabem, os 6 primeiros jogos serão sorteados. Vamos ver qual será o vosso primeiro desafio.

Ciaran levantou-se com um pote de barro nas mãos que dizia “1º desafio” e subiu ao palco.

                - Para dar-me sorte. – afirmou Riki  depois de beijar a mão com que Ebony iria tirar o primeiro papel.

                A rapariga meteu a mão no pote, agarrou um papel, desembrulhou-o e leu em voz alta:

                - Tiro ao alvo! Este será o primeiro jogo. É simples: consiste em tentar acertar o mais próximo possível da zona central do alvo, quem disparar o mais afastado desta, será eliminado. Mas só terão direito a duas balas. Então que comecem os Jogos de Cavalheiros!



[1] Kiddo – termo usado no calão americano, sendo um termo pejorativo, que substitui a palavra “kid”, cujo significado é miúdo.

[2] “Maior e vacinado” – expressão popular que significa alguém que já sabe tomar conta de si.

[3] Dana – homem rico, que na cultura japonesa possui uma gueixa.

[4] Akira – nome de origem japonesa, cujo significado é “o inteligente”.

Cap. II (part.1) Lá fora já era de dia, a luz invadia agora o quarto de Amaya. Esta acordou e espreguiçou-se sobre o dorso nu de Haine. O rapaz sentiu uma grande dor.                 - Nada melhor que começar o dia com uma dor aguda nas costelas, porque se tem uma pequena a espreguiçar-se em cima de ti. – afirmou ele com um sorriso, olhando-a só com um olho aberto.                 Ela riu-se.                 - Nada melhor que acordar com um ladrão baleado, na nossa cama, a queixar-se de dores.                 Levantou-se de cima dele sentando-se na cama, espreguiçou-se de novo para um lado, para o outro e no final levantou-se, pegou no coldre e foi para a casa de banho vestir-se. Haine seguiu cada movimento dela com os olhos. Voltou a sair e perguntou-lhe:                 - Precisa-se de ajuda a tomar banho, Haine?                 - Estás-te a oferecer para me ajudar? – Haine franziu a sobrancelha.                 - Não. Mas como tão cedo não vais sair daqui e já tresandas, eu acho por bem que tomes um banho. E visto que mais ninguém te vai ajudar, cabe-me a mim fazer essa ingrata tarefa. – May colocou a língua de fora.                   - Hum… - Haine sorriu. – Não preciso de ajuda para o banho em si, mas agradecia se me ajudasses a ir para a casa de banho.                 - Se ficares sem esse cheiro, por mim… – May deu um dos seus ares de superioridade. – Espera aqui.                 Entrou na casa de banho, meteu a banheira a encher.                 - Vais cheirar a pêssegos! – afirmou rindo-se enquanto colocava sais de banho na água. - Como queiras, pequena.          Quando a banheira estava cheia de espuma, fechou a água e ajudou Haine a ir até esta, com cuidado tirou-lhe as ligaduras. O rapaz ficou de pé, de costas para ela. Desapertou as calças e baixou-as juntamente com os bóxeres. Olhou para ela e sorriu de forma marota. Depois, um pé de cada vez entrou na banheira cheia de água quente e espuma cor-de-laranja. Mergulhou a cabeça debaixo de água e, quando voltou a erguer-se da espuma, May tinha saído e fechado a porta. May encostara-se à porta fechada. Suspirou baixinho. Os seus pensamentos foram interrompidos por um estrondo vindo do bar ainda fechado. - Serviços do “Papá”! – ouviu-se berrar. May correu para a casa de banho, pegou no coldre que estava em cima do armário do lavatório. - Sabes disparar não sabes? – perguntou a Haine. - Sei, porquê? - Serviços do “Papá”. Nesse armário, ai mesmo ao teu lado, tem uma caçadeira. Esconde-te debaixo de água o máximo de tempo que puderes, mas mal ouças paços a aproximar-se pega na arma. – Saiu a correr. Com as duas armas na mão e o coldre na cintura, ainda de corpete percorreu o corredor. Uma porta abre-se, eram Ebony e Vince. - Ouviste? – perguntou Ebony. - Não, decidi andar com duas armas pelo corredor porque é fixe! – respondeu ironicamente May. - Alguém teve uma má manhã. – Afirmou Ebony enquanto caminhavam, pé ante pé, pelo corredor. - Meninas, necessitam de ajuda? – a voz calma do empregado fez-se soar no corredor. - Sim, toma conta do Vince. – pediu Ebony. - Entre aqui menino. Estará seguro comigo. – afirmou Ciaran, puxando o rapaz para dentro do seu quarto. As raparigas desceram as escadas devagar. Ao chegarem ao saloon, o “Papá” estava sentado na sua poltrona favorita, com um monte de capangas à sua volta. - Vamos a isto. – Afirmou May. Ebony acenou em consenso. Começaram os disparos, os capangas caíam um a um. May correu do hall das escadas para trás do bar, sempre a disparar. Quando só um capanga restava, um alto e forte homem, que acendia um charuto com a maior das calmas ao “Papá”, as raparigas pararam. - Filhas, peço desculpa acordar-vos de forma tão bruta e tão cedo. – o “Papá” pegou na mão de Ebony e beijou-a. - Que quer? – perguntou-lhe esta. - Um dos vossos clientes confirmou-me que viu aqui um dos meus “procurados”. E já agora: isso é maneira de receber o seu querido Pai, menina Ebony? – disse o homem puxando do charuto. Daisuke entra na sala vagarosamente, vindo do andar de cima. - Foi esta a educação que lhes deste? – pergunta o homem a Daisuke. - Não. Mas também não é “boa educação” entrar numa casa sem autorização. – respondeu-lhe o velho, indo em direção a Amaya. – May, estás  a deitar sangue do braço. - Impossível! – exclamou ela. - Eu sou bom atirador. – afirmou o homem encostado ao “Papá”. – Permitam que me apresente: o meu nome é Erick [1]. - Fazes jus ao teu nome: tens olhos de águia. – afirmou May rasgando um pedaço do pano de limpar a louça e atando-o com os dentes ao longo da ferida.  – Pena só ter sido de raspão. - Bem, agora que estão apresentados, dêem-me os rapazes. – pediu o “Papá” enquanto libertava um pedaço de fumo. - Não estão cá rapazes nenhuns. – disse Ebony com desdém. – Agora vou-me vestir que o Riki [2] hoje vem à cidade. - Vai e põe-te bonita. – Ordenou o “Papá”. – Afinal ele sozinho quase que paga as contas do saloon. Ebony lançou o cabelo para trás num gesto de superioridade enquanto se vira para as escadas. - Não sei como foi capaz de fazer tal coisa à sua própria filha. – rugiu o velho Daisuke enquanto se preparava para abrir o Saloon ao público. - Ela estava apaixonada por ele, só lhe dei um empurrão e um sustento! – o “Papá” só perdia o seu ar sereno quando era confrontado por Daisuke. - Isso não lhe dava o direito de a vender! - Alugar, meu caro Dai, afinal ele paga-lhe todos os meses. – May riu-se. - Amaya, minha menina nascida numa noite de chuva, que achas deste “negócio” que eu fiz com a tua irmã? – o “Papá” gostava da maneira prática que May tinha de ver as coisas, apesar de preferir a personalidade adulta e responsável de Ebony. Sem dúvida que a sua filha mais velha era a sua preferida. - Bem, acho que é o que qualquer rapariga quer… - parou por momentos e sorriu dos seus pensamentos parvos. – É a amante oficial de um homem e todos o sabem. Mais ninguém toca no seu homem, a não ser a mulher dele. Recebe dinheiro no final do mês que serve para pagar a maior parte das contas e ainda tem direito a sexo! May soltou uma das suas gargalhadas que inundavam o saloon inteiro. O seu riso era grave, tal como a sua voz. O “Papá” riu-se com ela. - Amaya, minha filha, não devias de pensar assim… - Daisuke não tinha dúvidas quanto à inteligência daquela garota, nem à sua vivacidade, mas por vezes esta surpreendia-o com as escolhas que fazia. - Só dei a minha opinião… E já agora, neste mundo em que só os vícios é que pagam contas, qual é o mal de aproveitar um pouco? – Amaya colocou a língua de fora. - Sais mesmo ao “Papá”. – gabou-se o homem. - É pena o “Papá”, ser só o “Papá”! Uma mera palavra dita por uma criança, por conveniência! – afirmou Daisuke. As palavras saíram ásperas, quase que lhe rasparam a garganta ao sair. Amaya baixa a cabeça, o “Papá” olha a expressão triste da rapariga. - Vou-me embora, tenho assuntos para tratar. Erick, vamos! – ordenou o homem ao fitar Daisuke com um ar severo. - Adeus “Papá”. – despediu-se Amaya. – E Erick, para a próxima não falhes. - Não falharei! - afirmou o rapaz rindo. [1] Erick – nome de origem anglo-saxã, cujo significado é “aquele que tem o poder da águia”. [2]  Riki – nome japonês, que significa “poder”.

Cap. II (part.1)

Lá fora já era de dia, a luz invadia agora o quarto de Amaya. Esta acordou e espreguiçou-se sobre o dorso nu de Haine. O rapaz sentiu uma grande dor.

                - Nada melhor que começar o dia com uma dor aguda nas costelas, porque se tem uma pequena a espreguiçar-se em cima de ti. – afirmou ele com um sorriso, olhando-a só com um olho aberto.

                Ela riu-se.

                - Nada melhor que acordar com um ladrão baleado, na nossa cama, a queixar-se de dores.

                Levantou-se de cima dele sentando-se na cama, espreguiçou-se de novo para um lado, para o outro e no final levantou-se, pegou no coldre e foi para a casa de banho vestir-se. Haine seguiu cada movimento dela com os olhos. Voltou a sair e perguntou-lhe:

                - Precisa-se de ajuda a tomar banho, Haine?

                - Estás-te a oferecer para me ajudar? – Haine franziu a sobrancelha.

                - Não. Mas como tão cedo não vais sair daqui e já tresandas, eu acho por bem que tomes um banho. E visto que mais ninguém te vai ajudar, cabe-me a mim fazer essa ingrata tarefa. – May colocou a língua de fora.  

                - Hum… - Haine sorriu. – Não preciso de ajuda para o banho em si, mas agradecia se me ajudasses a ir para a casa de banho.

                - Se ficares sem esse cheiro, por mim… – May deu um dos seus ares de superioridade. – Espera aqui.

                Entrou na casa de banho, meteu a banheira a encher.

                - Vais cheirar a pêssegos! – afirmou rindo-se enquanto colocava sais de banho na água.

- Como queiras, pequena.         

Quando a banheira estava cheia de espuma, fechou a água e ajudou Haine a ir até esta, com cuidado tirou-lhe as ligaduras. O rapaz ficou de pé, de costas para ela. Desapertou as calças e baixou-as juntamente com os bóxeres. Olhou para ela e sorriu de forma marota. Depois, um pé de cada vez entrou na banheira cheia de água quente e espuma cor-de-laranja. Mergulhou a cabeça debaixo de água e, quando voltou a erguer-se da espuma, May tinha saído e fechado a porta. May encostara-se à porta fechada. Suspirou baixinho.

Os seus pensamentos foram interrompidos por um estrondo vindo do bar ainda fechado.

- Serviços do “Papá”! – ouviu-se berrar.

May correu para a casa de banho, pegou no coldre que estava em cima do armário do lavatório.

- Sabes disparar não sabes? – perguntou a Haine.

- Sei, porquê?

- Serviços do “Papá”. Nesse armário, ai mesmo ao teu lado, tem uma caçadeira. Esconde-te debaixo de água o máximo de tempo que puderes, mas mal ouças paços a aproximar-se pega na arma. – Saiu a correr.

Com as duas armas na mão e o coldre na cintura, ainda de corpete percorreu o corredor. Uma porta abre-se, eram Ebony e Vince.

- Ouviste? – perguntou Ebony.

- Não, decidi andar com duas armas pelo corredor porque é fixe! – respondeu ironicamente May.

- Alguém teve uma má manhã. – Afirmou Ebony enquanto caminhavam, pé ante pé, pelo corredor.

- Meninas, necessitam de ajuda? – a voz calma do empregado fez-se soar no corredor.

- Sim, toma conta do Vince. – pediu Ebony.

- Entre aqui menino. Estará seguro comigo. – afirmou Ciaran, puxando o rapaz para dentro do seu quarto.

As raparigas desceram as escadas devagar. Ao chegarem ao saloon, o “Papá” estava sentado na sua poltrona favorita, com um monte de capangas à sua volta.

- Vamos a isto. – Afirmou May. Ebony acenou em consenso.

Começaram os disparos, os capangas caíam um a um. May correu do hall das escadas para trás do bar, sempre a disparar. Quando só um capanga restava, um alto e forte homem, que acendia um charuto com a maior das calmas ao “Papá”, as raparigas pararam.

- Filhas, peço desculpa acordar-vos de forma tão bruta e tão cedo. – o “Papá” pegou na mão de Ebony e beijou-a.

- Que quer? – perguntou-lhe esta.

- Um dos vossos clientes confirmou-me que viu aqui um dos meus “procurados”. E já agora: isso é maneira de receber o seu querido Pai, menina Ebony? – disse o homem puxando do charuto.

Daisuke entra na sala vagarosamente, vindo do andar de cima.

- Foi esta a educação que lhes deste? – pergunta o homem a Daisuke.

- Não. Mas também não é “boa educação” entrar numa casa sem autorização. – respondeu-lhe o velho, indo em direção a Amaya. – May, estás  a deitar sangue do braço.

- Impossível! – exclamou ela.

- Eu sou bom atirador. – afirmou o homem encostado ao “Papá”. – Permitam que me apresente: o meu nome é Erick [1].

- Fazes jus ao teu nome: tens olhos de águia. – afirmou May rasgando um pedaço do pano de limpar a louça e atando-o com os dentes ao longo da ferida.  – Pena só ter sido de raspão.

- Bem, agora que estão apresentados, dêem-me os rapazes. – pediu o “Papá” enquanto libertava um pedaço de fumo.

- Não estão cá rapazes nenhuns. – disse Ebony com desdém. – Agora vou-me vestir que o Riki [2] hoje vem à cidade.

- Vai e põe-te bonita. – Ordenou o “Papá”. – Afinal ele sozinho quase que paga as contas do saloon.

Ebony lançou o cabelo para trás num gesto de superioridade enquanto se vira para as escadas.

- Não sei como foi capaz de fazer tal coisa à sua própria filha. – rugiu o velho Daisuke enquanto se preparava para abrir o Saloon ao público.

- Ela estava apaixonada por ele, só lhe dei um empurrão e um sustento! – o “Papá” só perdia o seu ar sereno quando era confrontado por Daisuke.

- Isso não lhe dava o direito de a vender!

- Alugar, meu caro Dai, afinal ele paga-lhe todos os meses. – May riu-se.

- Amaya, minha menina nascida numa noite de chuva, que achas deste “negócio” que eu fiz com a tua irmã? – o “Papá” gostava da maneira prática que May tinha de ver as coisas, apesar de preferir a personalidade adulta e responsável de Ebony. Sem dúvida que a sua filha mais velha era a sua preferida.

- Bem, acho que é o que qualquer rapariga quer… - parou por momentos e sorriu dos seus pensamentos parvos. – É a amante oficial de um homem e todos o sabem. Mais ninguém toca no seu homem, a não ser a mulher dele. Recebe dinheiro no final do mês que serve para pagar a maior parte das contas e ainda tem direito a sexo!

May soltou uma das suas gargalhadas que inundavam o saloon inteiro. O seu riso era grave, tal como a sua voz. O “Papá” riu-se com ela.

- Amaya, minha filha, não devias de pensar assim… - Daisuke não tinha dúvidas quanto à inteligência daquela garota, nem à sua vivacidade, mas por vezes esta surpreendia-o com as escolhas que fazia.

- Só dei a minha opinião… E já agora, neste mundo em que só os vícios é que pagam contas, qual é o mal de aproveitar um pouco? – Amaya colocou a língua de fora.

- Sais mesmo ao “Papá”. – gabou-se o homem.

- É pena o “Papá”, ser só o “Papá”! Uma mera palavra dita por uma criança, por conveniência! – afirmou Daisuke. As palavras saíram ásperas, quase que lhe rasparam a garganta ao sair.

Amaya baixa a cabeça, o “Papá” olha a expressão triste da rapariga.

- Vou-me embora, tenho assuntos para tratar. Erick, vamos! – ordenou o homem ao fitar Daisuke com um ar severo.

- Adeus “Papá”. – despediu-se Amaya. – E Erick, para a próxima não falhes.

- Não falharei! - afirmou o rapaz rindo.



[1] Erick – nome de origem anglo-saxã, cujo significado é “aquele que tem o poder da águia”.

[2]  Riki – nome japonês, que significa “poder”.

Cap. I (part.2) - Onde vou dormir hoje? – perguntou Haine. - A pensão está cheia, irás dormir aqui. - E tu? - Aqui também… - respondeu-lhe apontando para o sofá ao lado da cama. Entrou na casa de banho do quarto e saiu de lá, pouco tempo depois, vestia agora um corpete de fundo branco com renda preta, as ligas e a lingerie. Trazia o coldre na mão que pousou na mesinha de cabeceira. - Deixa-me ver isso ai … - apontou-lhe para a ligadura ensanguentada. Haine manteve-se imóvel e deixou-a mexer-lhe à vontade apesar das dores que tinha. Ela suspirou. - Alguma coisa está mal? – questionou ele. - Não, simplesmente uns dos pontos abriram. - Ok. Mas não te preocupes comigo, sim? May sentiu-se corar: era verdade que estava preocupada com ele. Antes que Haine nota-se, baixou a cabeça, ficando com o cabelo à frente da cara e começou a envolve-lo com uma nova ligadura. Quando acabou olhou em volta e viu que o Ciaran tinha levado a tesoura, então tentou cortar a ligadura com os dentes. Levou a ligadura à boca, prendeu-a com os dentes e olhou fixamente para os olhos de Haine. Ela estava ajoelhada ao lado da cama e ele sentado nesta, com aqueles seus olhos azuis e inocentes a olhar para ele com uma ligadura na boca, milhares de pensamentos obscenos passaram-lhe pela cabeça, ajudados pelos barulhos abafados que vinham dos outros quartos onde as empregadas faziam os seus serviços privados. Ela rasgou a ligadura de uma vez só, atou-a e levantou-se. Haine não se controlou: os seus braços envolveram-lhe a cintura e as suas mãos encontram-se sobre as nádegas da rapariga. Deixou a sua cabeça repousar-lhe na barriga, mesmo debaixo dos seios. May ficou imóvel, não sabia o que fazer. De repente, algo passou no pensamento de Amaya: estava a amolecer! Até ali nenhum homem lhe tocara sem pedir autorização e Haine tinha-lhe tocado duas vezes no mesmo dia! Libertou-se dos braços dele e empurrou-o para a cama. Haine ficou deitado a olhar a moça de pé. - Não voltes a fazer isso! – desta vez dissera-o com fúria. - Desculpa… Mas tu és… May interrompe-o. - “Um pecado em forma de menina inocente”, já o ouvi muitas vezes. - Não ia dizer isso… - respondeu Haine, a voz saía-lhe de forma calma e paternal. - Não? – Amaya estava incrédula, apesar de o tentar disfarçar. - Não. Ia dizer que tu és um mistério. Era a primeira vez que alguém lhe dizia que ela não era algo sexual, mas não se podia mostrar lisonjeada. - Hum… Ok. – respondeu secamente. - Se quiseres podes dormir na cama, eu vou para o sofá. Afinal sou só um “convidado”. - Não, ainda fazes algo que faça com que o resto dos pontos abram. - Eu insisto, a sério. Ela olhou-o de alto a baixo com um olhar matreiro. - Podemos dormir os dois na mesma cama. – Acabou por dizer. – Mas não tentes nada de engraçadinho, senão quem te abre os pontos sou eu. - Não tentarei. Até porque já me doí quando me mexo, não quero que essa dor aumente. – Ele sorriu-lhe. May contornou a cama e deitou-se do outro lado, virada para a porta. Haine deixou-se ficar encostado às almofadas, a olhar para ela e para toda a sua beleza inocentemente provocadora até adormecer. No corredor, ouviram-se passos. Ebony caminhava ao lado de Vince. -Vais dormir no meu quarto, no sofá cama. A pensão está cheia, como de costume. - O negócio vai bem, isso é bom! - Os vícios desde sempre venderam, Vince. O rapaz corou, ela tinha toda a razão. - Este é o meu quarto. – afirmou Ebony ao abrir a porta. - É bem grande. – o rapaz parou na porta. Ela olhou-o com atenção pela primeira vez: tinha os cabelos compridos ruivos, que lhe chegavam abaixo dos ombros, e olhos azuis-claros. Usava uma t-shirt branca com quadrados pretos, umas calças de ganga e umas botas pretas que trazia desapertadas e com a lingueta[1] a cair. Usava uma pulseira larga de couro preto no pulso direito. - Podes entrar. Não vais dormir no corredor, pois não? – acabou por perguntar. - Não, estava só à espera da tua autorização. – disse Vince. - Um ladrão com bons modos?! – Ebony solta uma gargalhada. – Nunca tinha visto tal coisa. - Eu não sou ladrão… - comentou timidamente Vince. - Não, claro que não! – Ebony soltou outra gargalhada. – Vou mudar de roupa. Se quiseres alguma coisa para vestir vai até ao quarto do fundo do corredor e pede ao Ciaran. - Deixa para lá. Eu durmo de bóxeres. - Ok. – respondeu encolhendo os ombros. Entrou para a casa de banho e quando de lá saiu trazia vestido um robe preto transparente por cima da lingerie. Olhou para o sofá e viu que o rapaz já dormia profundamente, passou-lhe a mão no cabelo, arrumando-o dos olhos e disse baixinho: - Deves estar exausto e assustado com tudo o que se passou hoje. – Aos olhos dela, ele parecia ser mais novo, quase como uma cria a precisar de proteção. O seu lado mais maternal tinha vindo ao de cima. Caminhou para a cama e deitou-se, adormeceu rapidamente. No outro quarto Haine sentiu um ligeiro peso sobre as costelas e acordou com as dores. Olhou para baixo e viu que May tinha deitado a cabeça sobre ele e estava agora aninhada no seu torso. O rapaz sorriu para si mesmo: ela era ainda uma criança com responsabilidades de adulta. - Será que algum dia tiveste uma infância? – perguntou-lhe baixinho enquanto lhe acariciava a face. – Uma infância a sério, sem homens, sem teres que ser adulta? Assim com bonecas e fantasias de criança? Olhou-a um bom bocado. Estava cheio de dores mas adorava sentir o corpo dela junto do seu, por isso deixou-a ficar. - Não tiveste, não. Nota-se na tua maneira fria de afastares as pessoas, na tua superioridade, nessa tua sensualidade excessiva … - acabou por responder a si mesmo. – Eu gosto mais da tua faceta de menina carinhosa, és boa pessoa Amaya. - Enganaste… - respondeu-lhe sonolenta, sem abrir os olhos ou levantar a cabeça do torso dele. – Eu não sou boa pessoa, se o fosse não fazia o que faço. - Hum … - olhava a luz do luar que entrava pela janela enquanto lhe acariciava o cabelo. – Nem sempre nos é dada a oportunidade de decidir aquilo que queremos ser, às vezes somos simplesmente obrigados a aceitar uma maneira de ser. Para além disso, o conceito de “bondade” é relativo. May não respondeu, o calor daquele momento embalava-a. Não sabia porquê mas sentia-se bem junto de Haine. Este reclinou-se nas almofadas de forma a diminuir as dores, ali ficou a olhar o luar e a acaricia-la. Entretanto no outro quarto Vince acorda com um barulho vindo do bar. Ele sente-se inseguro naquela terra. Em todos os assaltos que fizeram Haine nunca tinha caído assim, completamente imóvel no chão, nunca lhe tinham conseguido acertar. Para Vince, Haine era como um ídolo: era muito veloz, tinha muito força, sabia manusear uma arma com destreza e habilidade, mas para além disso, era bastante inteligente, pacato, silencioso e misterioso, nunca se sabia o que ele estava a pensar ou a sentir. Por outro lado ele próprio se considerava um cobarde, não tinha nem metade da coragem de Haine, nem metade da força ou inteligência. A diferença de idades era até significativa, Vince tinha 18 e Haine 22 anos, mas isso não era desculpa! Voltou a ouvir barulhos, ficou ainda mais assustado. - Ebony, Ebony ! – chamou ele. - Que foi? – perguntou a rapariga evidentemente chateada. - Estou a ouvir barulhos lá em baixo! - Sabes o que estou a ouvir? Um puto chato que está a interromper o meu sono! Agora volta a dormir, antes a minha Beretta[2] te dê uma ajudinha para adormeceres! A rapariga virou-se para o outro lado. Ficou um silêncio assombroso no quarto. Vince olhou-se ao espelho iluminado pela luz do candeeiro a óleo: - BAH! Metes-me nojo sabias?! – reclamou consigo mesmo, em voz baixa, mas num tom decidido e forte! – Com medo de uns barulhitos! Fechou os olhos e tentou dormir. Ebony esperou que ele adormecesse, então levantou-se, aconchegou-lhe os cobertores e disse baixinho: - Não tenhas medo, eu estou aqui.  - beijou-lhe a testa e voltou a dormir. [1] Lingueta – parte do sapato que fica debaixo das atacas. [2] Beretta – Nome de um tipo de pistola (Beretta 92F)

Cap. I (part.2)

- Onde vou dormir hoje? – perguntou Haine.

- A pensão está cheia, irás dormir aqui.

- E tu?

- Aqui também… - respondeu-lhe apontando para o sofá ao lado da cama.

Entrou na casa de banho do quarto e saiu de lá, pouco tempo depois, vestia agora um corpete de fundo branco com renda preta, as ligas e a lingerie. Trazia o coldre na mão que pousou na mesinha de cabeceira.

- Deixa-me ver isso ai … - apontou-lhe para a ligadura ensanguentada.

Haine manteve-se imóvel e deixou-a mexer-lhe à vontade apesar das dores que tinha. Ela suspirou.

- Alguma coisa está mal? – questionou ele.

- Não, simplesmente uns dos pontos abriram.

- Ok. Mas não te preocupes comigo, sim?

May sentiu-se corar: era verdade que estava preocupada com ele. Antes que Haine nota-se, baixou a cabeça, ficando com o cabelo à frente da cara e começou a envolve-lo com uma nova ligadura. Quando acabou olhou em volta e viu que o Ciaran tinha levado a tesoura, então tentou cortar a ligadura com os dentes. Levou a ligadura à boca, prendeu-a com os dentes e olhou fixamente para os olhos de Haine. Ela estava ajoelhada ao lado da cama e ele sentado nesta, com aqueles seus olhos azuis e inocentes a olhar para ele com uma ligadura na boca, milhares de pensamentos obscenos passaram-lhe pela cabeça, ajudados pelos barulhos abafados que vinham dos outros quartos onde as empregadas faziam os seus serviços privados. Ela rasgou a ligadura de uma vez só, atou-a e levantou-se.

Haine não se controlou: os seus braços envolveram-lhe a cintura e as suas mãos encontram-se sobre as nádegas da rapariga. Deixou a sua cabeça repousar-lhe na barriga, mesmo debaixo dos seios. May ficou imóvel, não sabia o que fazer.

De repente, algo passou no pensamento de Amaya: estava a amolecer! Até ali nenhum homem lhe tocara sem pedir autorização e Haine tinha-lhe tocado duas vezes no mesmo dia! Libertou-se dos braços dele e empurrou-o para a cama. Haine ficou deitado a olhar a moça de pé.

- Não voltes a fazer isso! – desta vez dissera-o com fúria.

- Desculpa… Mas tu és…

May interrompe-o.

- “Um pecado em forma de menina inocente”, já o ouvi muitas vezes.

- Não ia dizer isso… - respondeu Haine, a voz saía-lhe de forma calma e paternal.

- Não? – Amaya estava incrédula, apesar de o tentar disfarçar.

- Não. Ia dizer que tu és um mistério.

Era a primeira vez que alguém lhe dizia que ela não era algo sexual, mas não se podia mostrar lisonjeada.

- Hum… Ok. – respondeu secamente.

- Se quiseres podes dormir na cama, eu vou para o sofá. Afinal sou só um “convidado”.

- Não, ainda fazes algo que faça com que o resto dos pontos abram.

- Eu insisto, a sério.

Ela olhou-o de alto a baixo com um olhar matreiro.

- Podemos dormir os dois na mesma cama. – Acabou por dizer. – Mas não tentes nada de engraçadinho, senão quem te abre os pontos sou eu.

- Não tentarei. Até porque já me doí quando me mexo, não quero que essa dor aumente. – Ele sorriu-lhe.

May contornou a cama e deitou-se do outro lado, virada para a porta. Haine deixou-se ficar encostado às almofadas, a olhar para ela e para toda a sua beleza inocentemente provocadora até adormecer.

No corredor, ouviram-se passos. Ebony caminhava ao lado de Vince.

-Vais dormir no meu quarto, no sofá cama. A pensão está cheia, como de costume.

- O negócio vai bem, isso é bom!

- Os vícios desde sempre venderam, Vince.

O rapaz corou, ela tinha toda a razão.

- Este é o meu quarto. – afirmou Ebony ao abrir a porta.

- É bem grande. – o rapaz parou na porta. Ela olhou-o com atenção pela primeira vez: tinha os cabelos compridos ruivos, que lhe chegavam abaixo dos ombros, e olhos azuis-claros. Usava uma t-shirt branca com quadrados pretos, umas calças de ganga e umas botas pretas que trazia desapertadas e com a lingueta[1] a cair. Usava uma pulseira larga de couro preto no pulso direito.

- Podes entrar. Não vais dormir no corredor, pois não? – acabou por perguntar.

- Não, estava só à espera da tua autorização. – disse Vince.

- Um ladrão com bons modos?! – Ebony solta uma gargalhada. – Nunca tinha visto tal coisa.

- Eu não sou ladrão… - comentou timidamente Vince.

- Não, claro que não! – Ebony soltou outra gargalhada. – Vou mudar de roupa. Se quiseres alguma coisa para vestir vai até ao quarto do fundo do corredor e pede ao Ciaran.

- Deixa para lá. Eu durmo de bóxeres.

- Ok. – respondeu encolhendo os ombros. Entrou para a casa de banho e quando de lá saiu trazia vestido um robe preto transparente por cima da lingerie. Olhou para o sofá e viu que o rapaz já dormia profundamente, passou-lhe a mão no cabelo, arrumando-o dos olhos e disse baixinho:

- Deves estar exausto e assustado com tudo o que se passou hoje. – Aos olhos dela, ele parecia ser mais novo, quase como uma cria a precisar de proteção. O seu lado mais maternal tinha vindo ao de cima. Caminhou para a cama e deitou-se, adormeceu rapidamente.

No outro quarto Haine sentiu um ligeiro peso sobre as costelas e acordou com as dores. Olhou para baixo e viu que May tinha deitado a cabeça sobre ele e estava agora aninhada no seu torso. O rapaz sorriu para si mesmo: ela era ainda uma criança com responsabilidades de adulta.

- Será que algum dia tiveste uma infância? – perguntou-lhe baixinho enquanto lhe acariciava a face. – Uma infância a sério, sem homens, sem teres que ser adulta? Assim com bonecas e fantasias de criança?

Olhou-a um bom bocado. Estava cheio de dores mas adorava sentir o corpo dela junto do seu, por isso deixou-a ficar.

- Não tiveste, não. Nota-se na tua maneira fria de afastares as pessoas, na tua superioridade, nessa tua sensualidade excessiva … - acabou por responder a si mesmo. – Eu gosto mais da tua faceta de menina carinhosa, és boa pessoa Amaya.

- Enganaste… - respondeu-lhe sonolenta, sem abrir os olhos ou levantar a cabeça do torso dele. – Eu não sou boa pessoa, se o fosse não fazia o que faço.

- Hum … - olhava a luz do luar que entrava pela janela enquanto lhe acariciava o cabelo. – Nem sempre nos é dada a oportunidade de decidir aquilo que queremos ser, às vezes somos simplesmente obrigados a aceitar uma maneira de ser. Para além disso, o conceito de “bondade” é relativo.

May não respondeu, o calor daquele momento embalava-a. Não sabia porquê mas sentia-se bem junto de Haine. Este reclinou-se nas almofadas de forma a diminuir as dores, ali ficou a olhar o luar e a acaricia-la.

Entretanto no outro quarto Vince acorda com um barulho vindo do bar. Ele sente-se inseguro naquela terra. Em todos os assaltos que fizeram Haine nunca tinha caído assim, completamente imóvel no chão, nunca lhe tinham conseguido acertar. Para Vince, Haine era como um ídolo: era muito veloz, tinha muito força, sabia manusear uma arma com destreza e habilidade, mas para além disso, era bastante inteligente, pacato, silencioso e misterioso, nunca se sabia o que ele estava a pensar ou a sentir. Por outro lado ele próprio se considerava um cobarde, não tinha nem metade da coragem de Haine, nem metade da força ou inteligência. A diferença de idades era até significativa, Vince tinha 18 e Haine 22 anos, mas isso não era desculpa!

Voltou a ouvir barulhos, ficou ainda mais assustado.

- Ebony, Ebony ! – chamou ele.

- Que foi? – perguntou a rapariga evidentemente chateada.

- Estou a ouvir barulhos lá em baixo!

- Sabes o que estou a ouvir? Um puto chato que está a interromper o meu sono! Agora volta a dormir, antes a minha Beretta[2] te dê uma ajudinha para adormeceres!

A rapariga virou-se para o outro lado. Ficou um silêncio assombroso no quarto. Vince olhou-se ao espelho iluminado pela luz do candeeiro a óleo:

- BAH! Metes-me nojo sabias?! – reclamou consigo mesmo, em voz baixa, mas num tom decidido e forte! – Com medo de uns barulhitos!

Fechou os olhos e tentou dormir. Ebony esperou que ele adormecesse, então levantou-se, aconchegou-lhe os cobertores e disse baixinho:

- Não tenhas medo, eu estou aqui.  - beijou-lhe a testa e voltou a dormir.



[1] Lingueta – parte do sapato que fica debaixo das atacas.

[2] Beretta – Nome de um tipo de pistola (Beretta 92F)

Cap. I (part. 1) Num futuro próximo, pós apocalipse. Numa tarde fria. Dois rapazes corriam por entre as ruas cheias de pessoas. Um deles trazia uma caixa, que segurava com todas as forças e o outro, que vinha mais lento trazia uma arma nas mãos. Atrás deles vinham três homens armados, mas ninguém parecia se importar, as pessoas simplesmente se desviavam e ignoravam. Era normal. Agora o mundo era governado por tiranos e mafiosos ricos. Quem pouco tinha não se metia nos assuntos deles. Mas roubar também era normal! A vida era regida pela “lei do mais forte”. Por entre as casas velhas e até destruídas existiam quelhos sombrios que não mostravam simpatia, era neles que a “escória” da sociedade se escondia. Era lá que as mulheres se vendiam, que os homens faziam os seus negócios elícitos, que se acaba com quem era considerado “portador de demasiada informação”, que aconteciam os maiores roubos e os ajustes de contas. Pouca gente se aventurava neles, mas os rapazes sabiam que não poderiam correr muito mais. - Haine[1]! Corta à direita. – Ordenou o 2º rapaz. Os homens estavam cada vez mais próximos. Sem responder sequer virou à direita. Ao virar a esquina, uma porta abriu-se e de lá saíram duas raparigas carregando uma lata do lixo, metendo-se na sua frente. Haine para, olha fixamente para elas. É ultrapassado por Vince[2], o 2º rapaz. Ouve-se um tiro e Haine cai aos pés da rapariga loira, que pousa o caixote no chão. Vince apressa-se a esconder-se atrás da rapariga morena que se começa a rir. - Foda-se! – desabafa a loira, sacando das armas. Ouvem-se três tiros e os capangas caiem no chão. - Boa pontaria. – diz a morena. - Nem por isso. Estava a mirar à cabeça e acertei-lhe no pescoço. Mas tu foste bem, mesmo na testa. – responde a outra ao guardar as pistolas no coldre[3] que lhe era largo. - Mataram-nos à primeira! – exclama Vince. - São capangas do “Papá”. - Sim, meteram-se em alguma bonita estes dois. – conversam as raparigas, ignorando por completo Vince. - Vão-nos ajudar? Acho que o Haine não aguenta muito mais tempo…  - Vince olha para o outro rapaz com pena. - Entremos, antes que venham mais. Consegues com ele? – Pergunta a morena. - Yap, claro. – Responde ajudando Haine a levantar-se. Arrasta-o para dentro. A casa era grande, tinha dois andares. No 1º andar situava-se um bar que imitava os antigos Saloons, com belas raparigas que serviam à mesa e ofereciam os mais variados e privados serviços, e onde os velhos e bêbados bebiam e fumavam. Havia um bar que percorria todo o espaço em comprimento e mesas para os clientes. No palco as moças dançavam alegremente ao ritmo acelerado da pianola que contrastava com a tristeza e a escuridão de todo o local. No 2º andar ficavam os quartos da pensão, os quartos das raparigas e o salão, sala onde estas costumavam passar os dias. Esta sala era grande e ampla, com um grande sofá e uma lareira que servia de iluminação ao espaço. Mal entraram um homem negro, alto e bastante musculado levantou-se e aproximou-se da rapariga que carregava Haine. - Precisa de ajuda, menina May? - Sim, Ciaran[4]. Leva-o para o meu quarto, que já lhe vou fazer o curativo. – virou-se então para o homem que estava no bar. Era um senhor com já uma certa idade, de boa constituição física, com barba pequena e cabelos compridos, ambos grisalhos. – Daisuke[5] serve-lhes um copo de Whisky. Subiu atrás do empregado, que chegado ao quarto pouso Haine na grande cama e saiu. A rapariga tirou a capa preta, de carapuço, que lhe chegava abaixo do joelho. Haine sentiu a cama macia a ceder ao peso da rapariga que se sentara ao seu lado. Ela olhou-o com curiosidade: trazia uma bandana[6] vermelha a segurar-lhe a franja do cabelo negro, para que se lhe vissem os olhos verdes claros. Usava um lenço da mesma cor ao pescoço e vestia-se com uma t-shirt e uma calças pretas. Tinha vários piercings na orelha direita. Arrastou-se até aos pés dele e tirou-lhe as grandes botas negras que imitavam as usadas na tropa. Bateram à porta. - Mais confortável? – perguntou-lhe ironicamente enquanto se dirigia para a porta. - Sim, obrigado. - Deseja algo mais, menina May? – questionou o empregado do outro lado da porta. - Não, obrigado Ciaran. – respondeu enquanto pegava numa bandeja que o empregado lhe trouxera. Fechou, então a porta e voltou-se a dirigir para Haine. - Vou-te tratar da ferida. Ele ficou sério enquanto May lhe cortava a t-shirt. Ficou admirada por ele ter um torso tão musculado. Com a ajuda de uma pinça retirou-lhe a bala da carne, ao que Haine suspirou um pequeno “Ai” abafado pela vergonha de se estar a queixar a uma rapariga. - Pussy[7]! – ouviu-se um riso do outro lado da porta. A rapariga morena apresentava-se de tal forma que não deixava qualquer margem para dúvidas: era bela. Alta, de lábios carnudos e de um vermelho bastante carregado e de cabelos e olhos negros como a noite. A sua cara era ríspida e de uma expressão carregada. Trazia uma saia de pregas preta e castanha, o coldre na barriga de uma das pernas e umas botas de salto alto pretas. Tinha uns grandes seios que se avistavam bem na camisa branca aberta no decote, que lhe ficava pelo umbigo. - Ebony[8], vais levar esse para onde? – questionou May apontando para o Vince. - Este é o Vince. E só lhe estou a apresentar a casa e depois dou-lhe mais um copo. - Ok. – Ebony retira-se. Deitou-lhe álcool na ferida, com a agulha e uma linha deu-lhe uns pontos e levantou-se para chegar a ligadura. - Já está. – afirmou, enquanto lhe envolvia o tronco com a ligadura. - Obrigado. – disse ele seriamente. Ela acenou com a cabeça, em silêncio, enquanto arrumava as coisas. Ouvem-se passos a subir as escadas e depois um bater na porta, apesar de esta estar aberta. - Menina May, posso levar as coisas? - Sim, leve Ciaran. - Obrigado, agora irei-me retirar. Fecho a porta, menina? - Sim. A noite já caíra. Haine está agora sentado na cama. May aproxima-se da janela aberta, de onde se vê a grande lua cheia, e inclina-se no seu beiral. - Não pude deixar de nota que o empregado te chamou May. O teu nome é Maio? - Não. O meu nome é Amaya[9], mas aqui todos me tratam por May. - Hum. Eu sou o… - May interrompeu-o. - Haine. O teu amigo disse. - Prazer. - Eu sei que é um prazer. – respondeu sem tirar os olhos da lua. Haine ri-se. Ele olhou-a bem: era baixa, com uns cabelos loiros imensamente longos, bastante esticados e uma franja que só deixava ver um dos olhos, que era de um azul a tender para o cinza. Usava umas botas grandes pretas de sola branca que lhe chegavam abaixo do joelho. Onde as botas acabavam começavam umas meias de liga negras, que iam até pouco mais acima do joelho. Trazia vestidos uns calções de ganga, escuros e muito curtos, e um colete preto bastante decotado de onde se deslumbrava os seus seios redondos. Tinha um ar de menina mas o seu corpo era de uma mulher adulta. Pela roupa tinha-se a sensação que se dava toda a conhecer num só olhar, mas bastava mira-la duas vezes e via-se que estava envolta em mistério. A cicatriz no pescoço chamou-lhe a atenção. - Posso fazer-te uma pergunta? - Yap. – respondeu, enquanto tirava um cigarro do maço que estava no coldre. - Que é essa cicatriz no pescoço? - Hum … - ficou pensativa. Meteu o cigarro à boca e acendeu-o. Acabou por responder deixando sair uma lufada de fumo cinzento pela boca: - Foi uma lição de vida…   - Uma lição de vida? – Haine olhava a rapariga inclinada à sua frente, mostrando todo o esplendor do seu corpo. - Sim. – Outra lufada de fumo rodopiou no ar. - Como assim? - Curioso, tu… – afirmou voltando-se para o rapaz. - Desculpa. – ele agora via-lhe a cara, estava séria. - Nop. – parou para puxar mais fumo ao cigarro. – Bem, acho que aprenderam que se não acertam à primeira não têm mais tentativas. - Pois … – um silêncio invadiu o quarto, os únicos sons eram vindos do bar, abafados por todo aquele ambiente calorosamente assustador. Acabou de fumar, esmagou o cigarro no cinzeiro e afirmou por fim: - Vou lá abaixo, tenta não fazer barulho. Os capangas do “Papá” não tardam a voltar cá. Antes que pudesse sequer responder, já ela tinha vestido a capa e saído pela porta. Ouviu-a descer as escadas e quando só o barulho abafado do bar prevalecia, recostou-se na almofada, puxou os cobertores e deixou-se embalar por tudo o que se tinha passado naquele dia. Quando May chegou ao bar não se encontrava um único cliente nas mesas de madeira velha. Daisuke estava ao balcão a limpar um copo já gasto de tantas vezes ser limpo sem precisar, Ciaran atirava facas ao alvo de dardos. Procurou pela sala por Ebony e Vince, foi encontrá-los no canto mais iluminado do estabelecimento. Ela estava de pé com um pé em cima da mesa, mostrando que tinha o coldre na barriga da perna, em vez de à cintura. Vince olhava-a fixamente. - Não o faças apaixonar-se já por ti. – afirmou May. - No máximo sedu-lo menina. – ri-se Ciaran. – A senhorita Ebony é muito bonita. - Ciaran, lá estás tu com as distinções. – comenta vagarosamente o velho de trás do balcão. – Chamas sempre “senhorita” a uma e “menina” a outra, quando elas só fazem 1 ano de diferença. - Não te preocupes, meu velho Dai. – May esforça-se para subir para o balcão onde se senta. – Eu gosto que ele me trate por menina, afinal o que é que todos os homens querem? Uma menina malandra. Estica-se para o velho como se o fosse beijar, mete-lhe a língua de fora e salta outra vez do balcão. - Ai menina May. Ainda dá um ataque ao velho com essas suas conversas. – comenta Ciaran. May olha fixamente para Ebony com um olhar matreiro, que faz com que esta se ria. Vince curioso, decide intervir. - O que é que este bar vende mesmo? - Tu não queres saber. – afirma Ebony sedutoramente. - Meninas! Venham cá! – ordena May batendo as palmas. Mal o faz, 5 raparigas deslumbrantes entram em fila indiana e aprontam-se a colocar-se em frente à patroa – Estas são as nossas empregadas, estão cá para servir às mesas, limpar, dançar e oferecer todos os mais variados serviços privados. - Serviços privados? – pergunta Vince. Esta pergunta gera um riso coletivo na sala. - Não me digas que não sabes o que são serviços privados? – Ebony está incrédula. – Serviços que uma mulher presta que só a ela e ao interessado dizem respeito. - Ahh… - exclama Vince um pouco envergonhado com a sua falta de conhecimento. - Retirem-se meninas. – ordena mais uma vez May. – E escondam-se bem, os capangas do “Papá” vêm ai. As raparigas saem da sala tal como entraram. - Quem é o “Papá”, Ebony? – pergunta Vince. - Vocês não são mesmo de cá, pois não? - Não. Nós somos… somos… bem … - atrapalha-se com as palavras. – Somos negociadores, logo temos que viajar muito. - Chama-lhe negociadores! – diz o velho. Antes que mais alguém possa dizer algo ouve-se um bater forte na porta do bar. Ebony pega na mão de Vince e puxa-o para trás do balcão. Empurra-o, obrigando-o a ajoelhar-se no chão. - Estamos fechados! – grita May. - Serviços do “Papá”. – respondem do outro lado da porta. - Então esperem que me componha. – May vira-se de costas para a porta. Irrompem, com um estrondo, pela porta a dentro os capangas armados. - Eu disse para me deixarem compor! – berra May enquanto saca das armas. - Nunca desobedeçam à minha irmã! – Ebony também saca a arma. Começa o tiroteio. Daisuke não se mexe, continua a limpar o mesmo copo. Vince treme agarrado às pernas de Ebony que continua a disparar sem lhe dar grande importância. Quando já só um capanga estava de pé e já sem balas, Ciaran decide intervir: - Menina May, posso? - Com todo o gosto. - o empregado aproxima-se do pobre homem que desata a correr pela rua. Entra então pela porta um homem muito bem trajado: de fato, tramelo e um borsalino[10]. Alto e bastante esguio. Ouve-se, em uníssono, as meninas gritar: - “Papá”! - Minhas filhas! – exclama o homem enquanto vai progredindo na sala com muito cuidado para não sujar os sapatos no sangue que está espalhado pelo chão. - A que se deve a honra desta sua presença? – pergunta Ebony dando enfase ao “sua”. - Tenho uma perguntinha para vos fazer… Por acaso não virão dois moços a passar por aqui com uma caixa nas mãos? – sem esperar resposta prosseguiu. -  E por acaso não lhes deram estalagem? - Não “Papá”. – respondeu May. – Mas porque pergunta? - Porque tenho assuntos a tratar com eles e os meus três homens encarregues de os encontrar estão mortos no beco ao lado do Saloon. May ri-se. - Não sabemos de nada. - Muito bem. – o homem ri-se. – Vou-me retirar então. Mas meninas isso de matar os meu homens tem que acabar, qualquer dia fico sem stock. - Arranja homens com melhor pontaria, que assim já não os matamos. Este nem dão gozo. – desabafou May. O homem riu-se. - Irei fazê-lo. Até um dia. - Até um dia. – despediu-se Ebony. -Até um dia Daysuke e cuide das minhas joias. – o olhar fixo em Daysuke é frio e com rancor. - Não se preocupe. – Daysuke está calmo. – Nunca cuidou delas, mas eu sempre o fiz. O homem faz sinal aos capangas que esperavam lá fora e estes recolhem os corpos, depois sai com um estrondoso bater de porta. - Pronto, já podes sair. – Ebony puxa Vince para cima. Antes que Vince posso dizer alguma coisa. Ebony agarra-o pelos colarinhos, encosta-o com força contra o balcão e aponta-lhe a arma à cabeça. - Da próxima vez que me tocares sem eu te dar autorização, eu não ameaço! – ameaça Ebony. - Desculpa, assustei-me com o tiroteio. Não é que não esteja habituado a armas e a estas coisas, mas normalmente também tenho uma arma para me defender… - justificou-se Vince. - Tu por acaso sabes disparar? – May frange a sobrancelha. - Eu por acaso… - É interrompido por May, que continua a falar. - Mas seja como for, vou lá acima ver o Haine. O rapaz parecia-me pálido. - Tu preocupada com alguém? – ri-se ironicamente Ebony. – Nem parece teu. - Ele sem camisola é muito mais gostoso do que com ela. E afinal de contas, não o posso deixar fugir sem receber primeiro a minha recompensa por tê-lo ajudado. - Chamemos-lhe recompensa. – comenta Ebony com um tom matreiro. Amaya ri-se e retira-se. Enquanto sobe as escadas vai pensando no porquê de se preocupar com aquele desconhecido. Uma coisa era verdade, ele era mesmo atraente. Ao entrar no quarto o rapaz estava sentado no parapeito da janela, com as pernas do lado de fora desta, a olhar a lua. - Tens um cigarro? – perguntou ele, ao aperceber-se que a rapariga entrara. - Sim. – respondeu-lhe tirando dois cigarros. – Como vieste para aqui? Não tens dores? - Já tive dores piores… - Yap. A rapariga sentara-se agora ao seu lado. O fumo cinzento dos cigarros esvoaçava pelo ar. - Sabes o que acho que aconteceu de melhor, depois do apocalipse? – perguntou ele. - Nop. – ela parecia distraída. - A lua ter-se aproximado tanto da Terra, assim podemos vê-la sempre. Pode não ter sido o melhor para a humanidade, mas pelo menos para mim foi. - Concordo. Foi por isso que escolhi este quarto: pode não ser o maior mas da janela temos esta vista. Ficaram então calados. O luar era a única luz que iluminava aquele quarto. Ele foi invadido por uma vontade de a agarrar, de lhe dizer que ela lhe tinha salvo a vida, mas em vez disso só conseguiu dizer: - Obrigado… - Pelo quê? – perguntou com o olhar fixo na lua. - Por hoje. Não só mataste duas pessoas, como me acolheste e me fizeste o curativo. - Só os matei porque não queria problemas… - Mas não tinhas que me ajudar… Ela suspirou. - Lá isso não. E antes que perguntes porque é que te estou a ajudar, eu tenho a dizer-te que não sei. Acho que só não queria ver-te ali aos meus pés… Agora May parecia-lhe mais humana que antes. Ela tinha sentimentos debaixo de todo aquele ar de superioridade. Esticou a mão para a dela, tinha as mãos geladas. - Não faças isso… - disse May. O rapaz largou-a, mas ao recuar sentiu uma dor forte no lado onde tinha sido baleado. Agarrou-se às costelas. - Vai para dentro antes que morras de dores. – afirmou a rapariga num tom calmo. Ele assim fez. May segui-o e fechou janela. [1] Haine – nome de origem francesa que significa “rancor” ou “veneno”. [2] Vince - diminutivo de Vicent, nome de origem inglesa que significa “Vencedor”) [3] Coldre - cinto que se usa para guardar as armas. [4] Ciaran - nome Irlandês, cujo significado é “negro como a noite”. [5] Daisuke – nome de origem Japonesa, cujo significado é “Grande Protector.” [6] Bandana – lenço que se usa como fita no cabelo ou pulso. [7] Pussy – expressão inglesa utilizada para designar pessoas que se comportam de forma mimada ou queixosa demais para a situação. Equivalente ao termo minorativo: “menina” em português. [8] Ebony – nome de origem inglesa, cujo significado é “negra”. [9] Amaya – nome de origem Japonesa, que significa “noite de chuva”. [10] Borsalino – tipo de chapéu usado pelos mafiosos.

Cap. I (part. 1)

Num futuro próximo, pós apocalipse. Numa tarde fria.

Dois rapazes corriam por entre as ruas cheias de pessoas. Um deles trazia uma caixa, que segurava com todas as forças e o outro, que vinha mais lento trazia uma arma nas mãos. Atrás deles vinham três homens armados, mas ninguém parecia se importar, as pessoas simplesmente se desviavam e ignoravam. Era normal. Agora o mundo era governado por tiranos e mafiosos ricos. Quem pouco tinha não se metia nos assuntos deles. Mas roubar também era normal! A vida era regida pela “lei do mais forte”.

Por entre as casas velhas e até destruídas existiam quelhos sombrios que não mostravam simpatia, era neles que a “escória” da sociedade se escondia. Era lá que as mulheres se vendiam, que os homens faziam os seus negócios elícitos, que se acaba com quem era considerado “portador de demasiada informação”, que aconteciam os maiores roubos e os ajustes de contas. Pouca gente se aventurava neles, mas os rapazes sabiam que não poderiam correr muito mais.

- Haine[1]! Corta à direita. – Ordenou o 2º rapaz. Os homens estavam cada vez mais próximos.

Sem responder sequer virou à direita. Ao virar a esquina, uma porta abriu-se e de lá saíram duas raparigas carregando uma lata do lixo, metendo-se na sua frente. Haine para, olha fixamente para elas. É ultrapassado por Vince[2], o 2º rapaz. Ouve-se um tiro e Haine cai aos pés da rapariga loira, que pousa o caixote no chão. Vince apressa-se a esconder-se atrás da rapariga morena que se começa a rir.

- Foda-se! – desabafa a loira, sacando das armas. Ouvem-se três tiros e os capangas caiem no chão.

- Boa pontaria. – diz a morena.

- Nem por isso. Estava a mirar à cabeça e acertei-lhe no pescoço. Mas tu foste bem, mesmo na testa. – responde a outra ao guardar as pistolas no coldre[3] que lhe era largo.

- Mataram-nos à primeira! – exclama Vince.

- São capangas do “Papá”.

- Sim, meteram-se em alguma bonita estes dois. – conversam as raparigas, ignorando por completo Vince.

- Vão-nos ajudar? Acho que o Haine não aguenta muito mais tempo…  - Vince olha para o outro rapaz com pena.

- Entremos, antes que venham mais. Consegues com ele? – Pergunta a morena.

- Yap, claro. – Responde ajudando Haine a levantar-se. Arrasta-o para dentro.

A casa era grande, tinha dois andares. No 1º andar situava-se um bar que imitava os antigos Saloons, com belas raparigas que serviam à mesa e ofereciam os mais variados e privados serviços, e onde os velhos e bêbados bebiam e fumavam. Havia um bar que percorria todo o espaço em comprimento e mesas para os clientes. No palco as moças dançavam alegremente ao ritmo acelerado da pianola que contrastava com a tristeza e a escuridão de todo o local.

No 2º andar ficavam os quartos da pensão, os quartos das raparigas e o salão, sala onde estas costumavam passar os dias. Esta sala era grande e ampla, com um grande sofá e uma lareira que servia de iluminação ao espaço.

Mal entraram um homem negro, alto e bastante musculado levantou-se e aproximou-se da rapariga que carregava Haine.

- Precisa de ajuda, menina May?

- Sim, Ciaran[4]. Leva-o para o meu quarto, que já lhe vou fazer o curativo. – virou-se então para o homem que estava no bar. Era um senhor com já uma certa idade, de boa constituição física, com barba pequena e cabelos compridos, ambos grisalhos. – Daisuke[5] serve-lhes um copo de Whisky.

Subiu atrás do empregado, que chegado ao quarto pouso Haine na grande cama e saiu. A rapariga tirou a capa preta, de carapuço, que lhe chegava abaixo do joelho. Haine sentiu a cama macia a ceder ao peso da rapariga que se sentara ao seu lado. Ela olhou-o com curiosidade: trazia uma bandana[6] vermelha a segurar-lhe a franja do cabelo negro, para que se lhe vissem os olhos verdes claros. Usava um lenço da mesma cor ao pescoço e vestia-se com uma t-shirt e uma calças pretas. Tinha vários piercings na orelha direita. Arrastou-se até aos pés dele e tirou-lhe as grandes botas negras que imitavam as usadas na tropa.

Bateram à porta.

- Mais confortável? – perguntou-lhe ironicamente enquanto se dirigia para a porta.

- Sim, obrigado.

- Deseja algo mais, menina May? – questionou o empregado do outro lado da porta.

- Não, obrigado Ciaran. – respondeu enquanto pegava numa bandeja que o empregado lhe trouxera. Fechou, então a porta e voltou-se a dirigir para Haine. - Vou-te tratar da ferida.

Ele ficou sério enquanto May lhe cortava a t-shirt. Ficou admirada por ele ter um torso tão musculado. Com a ajuda de uma pinça retirou-lhe a bala da carne, ao que Haine suspirou um pequeno “Ai” abafado pela vergonha de se estar a queixar a uma rapariga.

- Pussy[7]! – ouviu-se um riso do outro lado da porta. A rapariga morena apresentava-se de tal forma que não deixava qualquer margem para dúvidas: era bela. Alta, de lábios carnudos e de um vermelho bastante carregado e de cabelos e olhos negros como a noite. A sua cara era ríspida e de uma expressão carregada. Trazia uma saia de pregas preta e castanha, o coldre na barriga de uma das pernas e umas botas de salto alto pretas. Tinha uns grandes seios que se avistavam bem na camisa branca aberta no decote, que lhe ficava pelo umbigo.

- Ebony[8], vais levar esse para onde? – questionou May apontando para o Vince.

- Este é o Vince. E só lhe estou a apresentar a casa e depois dou-lhe mais um copo.

- Ok. – Ebony retira-se.

Deitou-lhe álcool na ferida, com a agulha e uma linha deu-lhe uns pontos e levantou-se para chegar a ligadura.

- Já está. – afirmou, enquanto lhe envolvia o tronco com a ligadura.

- Obrigado. – disse ele seriamente.

Ela acenou com a cabeça, em silêncio, enquanto arrumava as coisas. Ouvem-se passos a subir as escadas e depois um bater na porta, apesar de esta estar aberta.

- Menina May, posso levar as coisas?

- Sim, leve Ciaran.

- Obrigado, agora irei-me retirar. Fecho a porta, menina?

- Sim.

A noite já caíra. Haine está agora sentado na cama. May aproxima-se da janela aberta, de onde se vê a grande lua cheia, e inclina-se no seu beiral.

- Não pude deixar de nota que o empregado te chamou May. O teu nome é Maio?

- Não. O meu nome é Amaya[9], mas aqui todos me tratam por May.

- Hum. Eu sou o… - May interrompeu-o.

- Haine. O teu amigo disse.

- Prazer.

- Eu sei que é um prazer. – respondeu sem tirar os olhos da lua. Haine ri-se.

Ele olhou-a bem: era baixa, com uns cabelos loiros imensamente longos, bastante esticados e uma franja que só deixava ver um dos olhos, que era de um azul a tender para o cinza. Usava umas botas grandes pretas de sola branca que lhe chegavam abaixo do joelho. Onde as botas acabavam começavam umas meias de liga negras, que iam até pouco mais acima do joelho. Trazia vestidos uns calções de ganga, escuros e muito curtos, e um colete preto bastante decotado de onde se deslumbrava os seus seios redondos. Tinha um ar de menina mas o seu corpo era de uma mulher adulta. Pela roupa tinha-se a sensação que se dava toda a conhecer num só olhar, mas bastava mira-la duas vezes e via-se que estava envolta em mistério. A cicatriz no pescoço chamou-lhe a atenção.

- Posso fazer-te uma pergunta?

- Yap. – respondeu, enquanto tirava um cigarro do maço que estava no coldre.

- Que é essa cicatriz no pescoço?

- Hum … - ficou pensativa. Meteu o cigarro à boca e acendeu-o. Acabou por responder deixando sair uma lufada de fumo cinzento pela boca: - Foi uma lição de vida…

  - Uma lição de vida? – Haine olhava a rapariga inclinada à sua frente, mostrando todo o esplendor do seu corpo.

- Sim. – Outra lufada de fumo rodopiou no ar.

- Como assim?

- Curioso, tu… – afirmou voltando-se para o rapaz.

- Desculpa. – ele agora via-lhe a cara, estava séria.

- Nop. – parou para puxar mais fumo ao cigarro. – Bem, acho que aprenderam que se não acertam à primeira não têm mais tentativas.

- Pois … – um silêncio invadiu o quarto, os únicos sons eram vindos do bar, abafados por todo aquele ambiente calorosamente assustador.

Acabou de fumar, esmagou o cigarro no cinzeiro e afirmou por fim:

- Vou lá abaixo, tenta não fazer barulho. Os capangas do “Papá” não tardam a voltar cá.

Antes que pudesse sequer responder, já ela tinha vestido a capa e saído pela porta. Ouviu-a descer as escadas e quando só o barulho abafado do bar prevalecia, recostou-se na almofada, puxou os cobertores e deixou-se embalar por tudo o que se tinha passado naquele dia.

Quando May chegou ao bar não se encontrava um único cliente nas mesas de madeira velha. Daisuke estava ao balcão a limpar um copo já gasto de tantas vezes ser limpo sem precisar, Ciaran atirava facas ao alvo de dardos. Procurou pela sala por Ebony e Vince, foi encontrá-los no canto mais iluminado do estabelecimento. Ela estava de pé com um pé em cima da mesa, mostrando que tinha o coldre na barriga da perna, em vez de à cintura. Vince olhava-a fixamente.

- Não o faças apaixonar-se já por ti. – afirmou May.

- No máximo sedu-lo menina. – ri-se Ciaran. – A senhorita Ebony é muito bonita.

- Ciaran, lá estás tu com as distinções. – comenta vagarosamente o velho de trás do balcão. – Chamas sempre “senhorita” a uma e “menina” a outra, quando elas só fazem 1 ano de diferença.

- Não te preocupes, meu velho Dai. – May esforça-se para subir para o balcão onde se senta. – Eu gosto que ele me trate por menina, afinal o que é que todos os homens querem? Uma menina malandra.

Estica-se para o velho como se o fosse beijar, mete-lhe a língua de fora e salta outra vez do balcão.

- Ai menina May. Ainda dá um ataque ao velho com essas suas conversas. – comenta Ciaran.

May olha fixamente para Ebony com um olhar matreiro, que faz com que esta se ria. Vince curioso, decide intervir.

- O que é que este bar vende mesmo?

- Tu não queres saber. – afirma Ebony sedutoramente.

- Meninas! Venham cá! – ordena May batendo as palmas. Mal o faz, 5 raparigas deslumbrantes entram em fila indiana e aprontam-se a colocar-se em frente à patroa – Estas são as nossas empregadas, estão cá para servir às mesas, limpar, dançar e oferecer todos os mais variados serviços privados.

- Serviços privados? – pergunta Vince. Esta pergunta gera um riso coletivo na sala.

- Não me digas que não sabes o que são serviços privados? – Ebony está incrédula. – Serviços que uma mulher presta que só a ela e ao interessado dizem respeito.

- Ahh… - exclama Vince um pouco envergonhado com a sua falta de conhecimento.

- Retirem-se meninas. – ordena mais uma vez May. – E escondam-se bem, os capangas do “Papá” vêm ai.

As raparigas saem da sala tal como entraram.

- Quem é o “Papá”, Ebony? – pergunta Vince.

- Vocês não são mesmo de cá, pois não?

- Não. Nós somos… somos… bem … - atrapalha-se com as palavras. – Somos negociadores, logo temos que viajar muito.

- Chama-lhe negociadores! – diz o velho.

Antes que mais alguém possa dizer algo ouve-se um bater forte na porta do bar. Ebony pega na mão de Vince e puxa-o para trás do balcão. Empurra-o, obrigando-o a ajoelhar-se no chão.

- Estamos fechados! – grita May.

- Serviços do “Papá”. – respondem do outro lado da porta.

- Então esperem que me componha. – May vira-se de costas para a porta.

Irrompem, com um estrondo, pela porta a dentro os capangas armados.

- Eu disse para me deixarem compor! – berra May enquanto saca das armas.

- Nunca desobedeçam à minha irmã! – Ebony também saca a arma.

Começa o tiroteio. Daisuke não se mexe, continua a limpar o mesmo copo. Vince treme agarrado às pernas de Ebony que continua a disparar sem lhe dar grande importância. Quando já só um capanga estava de pé e já sem balas, Ciaran decide intervir:

- Menina May, posso?

- Com todo o gosto. - o empregado aproxima-se do pobre homem que desata a correr pela rua.

Entra então pela porta um homem muito bem trajado: de fato, tramelo e um borsalino[10]. Alto e bastante esguio. Ouve-se, em uníssono, as meninas gritar:

- “Papá”!

- Minhas filhas! – exclama o homem enquanto vai progredindo na sala com muito cuidado para não sujar os sapatos no sangue que está espalhado pelo chão.

- A que se deve a honra desta sua presença? – pergunta Ebony dando enfase ao “sua”.

- Tenho uma perguntinha para vos fazer… Por acaso não virão dois moços a passar por aqui com uma caixa nas mãos? – sem esperar resposta prosseguiu. -  E por acaso não lhes deram estalagem?

- Não “Papá”. – respondeu May. – Mas porque pergunta?

- Porque tenho assuntos a tratar com eles e os meus três homens encarregues de os encontrar estão mortos no beco ao lado do Saloon.

May ri-se.

- Não sabemos de nada.

- Muito bem. – o homem ri-se. – Vou-me retirar então. Mas meninas isso de matar os meu homens tem que acabar, qualquer dia fico sem stock.

- Arranja homens com melhor pontaria, que assim já não os matamos. Este nem dão gozo. – desabafou May.

O homem riu-se.

- Irei fazê-lo. Até um dia.

- Até um dia. – despediu-se Ebony.

-Até um dia Daysuke e cuide das minhas joias. – o olhar fixo em Daysuke é frio e com rancor.

- Não se preocupe. – Daysuke está calmo. – Nunca cuidou delas, mas eu sempre o fiz.

O homem faz sinal aos capangas que esperavam lá fora e estes recolhem os corpos, depois sai com um estrondoso bater de porta.

- Pronto, já podes sair. – Ebony puxa Vince para cima.

Antes que Vince posso dizer alguma coisa. Ebony agarra-o pelos colarinhos, encosta-o com força contra o balcão e aponta-lhe a arma à cabeça.

- Da próxima vez que me tocares sem eu te dar autorização, eu não ameaço! – ameaça Ebony.

- Desculpa, assustei-me com o tiroteio. Não é que não esteja habituado a armas e a estas coisas, mas normalmente também tenho uma arma para me defender… - justificou-se Vince.

- Tu por acaso sabes disparar? – May frange a sobrancelha.

- Eu por acaso… - É interrompido por May, que continua a falar.

- Mas seja como for, vou lá acima ver o Haine. O rapaz parecia-me pálido.

- Tu preocupada com alguém? – ri-se ironicamente Ebony. – Nem parece teu.

- Ele sem camisola é muito mais gostoso do que com ela. E afinal de contas, não o posso deixar fugir sem receber primeiro a minha recompensa por tê-lo ajudado.

- Chamemos-lhe recompensa. – comenta Ebony com um tom matreiro.

Amaya ri-se e retira-se. Enquanto sobe as escadas vai pensando no porquê de se preocupar com aquele desconhecido. Uma coisa era verdade, ele era mesmo atraente.

Ao entrar no quarto o rapaz estava sentado no parapeito da janela, com as pernas do lado de fora desta, a olhar a lua.

- Tens um cigarro? – perguntou ele, ao aperceber-se que a rapariga entrara.

- Sim. – respondeu-lhe tirando dois cigarros. – Como vieste para aqui? Não tens dores?

- Já tive dores piores…

- Yap.

A rapariga sentara-se agora ao seu lado. O fumo cinzento dos cigarros esvoaçava pelo ar.

- Sabes o que acho que aconteceu de melhor, depois do apocalipse? – perguntou ele.

- Nop. – ela parecia distraída.

- A lua ter-se aproximado tanto da Terra, assim podemos vê-la sempre. Pode não ter sido o melhor para a humanidade, mas pelo menos para mim foi.

- Concordo. Foi por isso que escolhi este quarto: pode não ser o maior mas da janela temos esta vista.

Ficaram então calados. O luar era a única luz que iluminava aquele quarto. Ele foi invadido por uma vontade de a agarrar, de lhe dizer que ela lhe tinha salvo a vida, mas em vez disso só conseguiu dizer:

- Obrigado…

- Pelo quê? – perguntou com o olhar fixo na lua.

- Por hoje. Não só mataste duas pessoas, como me acolheste e me fizeste o curativo.

- Só os matei porque não queria problemas…

- Mas não tinhas que me ajudar…

Ela suspirou.

- Lá isso não. E antes que perguntes porque é que te estou a ajudar, eu tenho a dizer-te que não sei. Acho que só não queria ver-te ali aos meus pés…

Agora May parecia-lhe mais humana que antes. Ela tinha sentimentos debaixo de todo aquele ar de superioridade. Esticou a mão para a dela, tinha as mãos geladas.

- Não faças isso… - disse May.

O rapaz largou-a, mas ao recuar sentiu uma dor forte no lado onde tinha sido baleado. Agarrou-se às costelas.

- Vai para dentro antes que morras de dores. – afirmou a rapariga num tom calmo.

Ele assim fez. May segui-o e fechou janela.



[1] Haine – nome de origem francesa que significa “rancor” ou “veneno”.

[2] Vince - diminutivo de Vicent, nome de origem inglesa que significa “Vencedor”)

[3] Coldre - cinto que se usa para guardar as armas.

[4] Ciaran - nome Irlandês, cujo significado é “negro como a noite”.

[5] Daisuke – nome de origem Japonesa, cujo significado é “Grande Protector.”

[6] Bandana – lenço que se usa como fita no cabelo ou pulso.

[7] Pussy – expressão inglesa utilizada para designar pessoas que se comportam de forma mimada ou queixosa demais para a situação. Equivalente ao termo minorativo: “menina” em português.

[8] Ebony – nome de origem inglesa, cujo significado é “negra”.

[9] Amaya – nome de origem Japonesa, que significa “noite de chuva”.

[10] Borsalino – tipo de chapéu usado pelos mafiosos.